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Medicamentos para Pressão e Coração

Valsartana

27 min de leitura Atualizado em 24/08/2026 Base ANVISA

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As doenças cardiovasculares representam a principal causa de morbidade e mortalidade em todo o mundo, demandando estratégias terapêuticas que não apenas controlem os níveis pressóricos, mas que também ofereçam proteção orgânica contra o dano cumulativo nos órgãos-alvo, como o coração, os rins e o cérebro. No centro dessa abordagem farmacológica está o bloqueio do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA), uma cascata hormonal complexa que regula a hemodinâmica cardiovascular e o equilíbrio hidroeletrolítico. A Valsartana consolidou-se como uma das moléculas mais importantes e prescritas globalmente dentro da classe dos Antagonistas dos Receptores de Angiotensina II (ARA II), destacando-se pela sua eficácia clínica robusta, perfil de tolerabilidade favorável e sólidas evidências científicas acumuladas ao longo de décadas de pesquisa clínica.

Originalmente desenvolvida para o tratamento da hipertensão arterial sistêmica, a utilidade clínica da Valsartana expandiu-se significativamente com a publicação de grandes ensaios clínicos randomizados, como os estudos Val-HeFT (Valsartan Heart Failure Trial) e VALIANT (Valsartan in Acute Myocardial Infarction Trial). Estes estudos demonstraram que os benefícios da Valsartana transcendem a simples redução da pressão arterial, englobando a redução da mortalidade e da hospitalização em pacientes com insuficiência cardíaca congestiva e a melhora da sobrevida em pacientes de alto risco após o infarto agudo do miocárdio. Este artigo técnico-científico visa detalhar de forma exaustiva as propriedades farmacológicas, clínicas e regulatórias da Valsartana, servindo como um guia de referência completo para profissionais de saúde e pacientes que buscam compreender profundamente este medicamento essencial.

O que é Valsartana?

A Valsartana é um fármaco sintético pertencente à classe dos Antagonistas dos Receptores de Angiotensina II (ARA II), também conhecidos na literatura médica como bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRAs). Trata-se de um composto não peptídico, derivado tetrazólico, formulado quimicamente para interagir de maneira altamente seletiva com os receptores celulares onde a angiotensina II exerce suas principais ações fisiopatológicas. No mercado farmacêutico brasileiro, a Valsartana foi introduzida originalmente pela companhia farmacêutica Novartis sob o nome comercial Diovan®, após obter aprovação regulatória baseada em extensivos estudos de segurança e eficácia.

A aprovação da Valsartana pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) consolidou o medicamento como uma das primeiras escolhas no manejo da hipertensão arterial sistêmica (HAS). Atualmente, o medicamento está amplamente disponível no Brasil tanto na sua forma genérica quanto sob diversos nomes comerciais (similares de alta qualidade). Ele é comercializado em diferentes dosagens (geralmente 40 mg, 80 mg, 160 mg e 320 mg) para permitir a flexibilidade posológica necessária para a individualização do tratamento.

Além da apresentação em monoterapia, a Valsartana é frequentemente formulada em associações de dose fixa com outros agentes anti-hipertensivos, potencializando o efeito terapêutico por meio de mecanismos de ação sinérgicos. As associações mais comuns no mercado brasileiro incluem:

  • Valsartana + Hidroclorotiazida: Combina o bloqueio do SRAA com um diurético tiazídico, promovendo maior excreção de sódio e água e reduzindo o volume circulante.
  • Valsartana + Besilato de Anlodipino: Associa o ARA II a um bloqueador dos canais de cálcio di-hidropiridínico, resultando em uma potente vasodilatação arterial periférica por duas vias distintas.
  • Valsartana + Besilato de Anlodipino + Hidroclorotiazida: Uma tripla associação indicada para casos de hipertensão de difícil controle ou moderada a grave.
  • Sacubitril + Valsartana: Uma inovação terapêutica disruptiva (conhecida como complexo LCZ696 ou pela classe ARNI – Inibidor do Receptor de Angiotensina e da Neprilisina), indicada especificamente para o tratamento da insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida.

Mecanismo de Ação

Para compreender o mecanismo de ação da Valsartana, é necessário analisar o funcionamento do Sistema Renina-Angiotensina-Aldosterona (SRAA). Em resposta a estímulos como a hipotensão renal, a depleção de sódio ou a ativação do sistema nervoso simpático, os rins secretam a enzima renina. A renina cliva o angiotensinogênio (uma proteína sintetizada pelo fígado) para formar o decapeptídeo inativo Angiotensina I. Esta, por sua vez, é convertida no octapeptídeo ativo Angiotensina II pela ação da Enzima Conversora de Angiotensina (ECA), localizada principalmente no endotélio vascular pulmonar e renal.

A Angiotensina II é o principal efetor do SRAA e exerce suas ações biológicas ligando-se a receptores de membrana específicos acoplados à proteína G, classificados principalmente em dois subtipos: Receptores AT1 e Receptores AT2.

  • Receptores AT1: Estão localizados predominantemente nos vasos sanguíneos, córtex adrenal, rins, coração e cérebro. A ativação dos receptores AT1 medeia os efeitos deletérios clássicos da Angiotensina II, que incluem vasoconstrição arterial direta e potente, liberação de aldosterona (promovendo retenção de sódio e água e excreção de potássio e hidrogênio), ativação simpática central e periférica, estimulação da liberação de vasopressina (ADH), além de induzir hipertrofia miocárdica, proliferação de células musculares lisas vasculares, inflamação, estresse oxidativo e fibrose tecidual.
  • Receptores AT2: Estão presentes em menor quantidade no tecido adulto (embora expressos em níveis mais elevados durante o desenvolvimento fetal e em certas condições patológicas). Sua ativação promove efeitos amplamente opostos aos do receptor AT1, como vasodilatação (mediada pela liberação de óxido nítrico e GMPc), antiproliferação celular, apoptose e efeitos anti-inflamatórios.

A Valsartana atua como um antagonista oral altamente seletivo e competitivo do receptor AT1. A afinidade da Valsartana pelo receptor AT1 é extremamente elevada — cerca de 20.000 vezes maior do que sua afinidade pelo receptor AT2. Ao ligar-se seletivamente ao receptor AT1, a Valsartana impede fisicamente que a Angiotensina II se acople a este sítio, bloqueando de forma eficaz todas as suas ações fisiopatológicas vasoconritoras, retentoras de sódio e pró-fibróticas.

Uma distinção farmacológica fundamental entre os ARA II (como a Valsartana) e os Inibidores da ECA (IECAs, como o enalapril e o captopril) reside no fato de que os ARA II não inibem a degradação da bradicinina. A via de síntese da Angiotensina II pode ocorrer por vias alternativas não mediadas pela ECA (como a via da quimase cardíaca). Os IECAs bloqueiam apenas a via dependente da ECA, permitindo o chamado “escape de angiotensina II”. A Valsartana, ao bloquear diretamente o receptor final (AT1), garante um bloqueio completo do sistema, independentemente da via metabólica de síntese da Angiotensina II. Além disso, por não interferir no metabolismo da bradicinina, a Valsartana não promove o acúmulo desta substância nas vias aéreas, o que explica a incidência extremamente baixa de tosse seca persistente — um efeito colateral limitante e muito comum associado ao uso de IECAs.

Adicionalmente, ao bloquear os receptores AT1, a Valsartana promove um aumento reacional nos níveis plasmáticos de Angiotensina II livre. Essa angiotensina circulante excedente fica disponível para ligar-se livremente aos receptores AT2 que permanecem desimpedidos. Essa estimulação indireta e seletiva dos receptores AT2 resulta em efeitos vasodilatadores adicionais e ações antiproliferativas benéficas, contribuindo para o perfil cardioprotetor e renoprotetor do fármaco.

⚗️ Como Funciona no Organismo?

Farmacocinética e Farmacodinâmica

Os parâmetros farmacocinéticos e farmacodinâmicos da Valsartana determinam o seu comportamento no organismo humano, desde o momento da ingestão até a sua eliminação total, justificando cientificamente o seu esquema posológico de tomada única diária na maioria das indicações clínicas.

Absorção

Após a administração por via oral, a Valsartana é absorvida de forma rápida, porém parcial, ao longo do trato gastrointestinal. A biodisponibilidade absoluta média da Valsartana em comprimidos é de aproximadamente 23% a 25% (com uma variação interindividual que pode oscilar entre 10% e 35%). O pico de concentração plasmática máxima ($C_{max}$) é atingido entre 2 e 4 horas após a ingestão em jejum. Quando a Valsartana é administrada juntamente com alimentos, ocorre uma redução de cerca de 40% na área sob a curva de concentração plasmática versus tempo (AUC) e de aproximadamente 50% na $C_{max}$. No entanto, essa redução na absorção não se traduz em uma diminuição clinicamente significativa do efeito terapêutico anti-hipertensivo. Portanto, do ponto de vista prático, a Valsartana pode ser administrada independentemente das refeições.

Distribuição

A Valsartana apresenta um volume de distribuição no estado de equilíbrio ($V_{ss}$) relativamente pequeno, situando-se em torno de 17 litros, o que indica que o fármaco não se distribui extensamente nos tecidos extravasculares profundos. O composto demonstra uma taxa de ligação extremamente elevada às proteínas plasmáticas séricas (entre 94% e 97%), ligando-se predominantemente à albumina sérica de forma reversível. Essa alta ligação proteica limita a filtração glomerular inicial, mas protege a molécula de uma depuração excessivamente rápida.

Metabolismo (Biotransformação)

Diferente de outros fármacos que sofrem metabolização hepática intensa de primeira passagem, a Valsartana não é extensamente biotransformada. Apenas cerca de 20% da dose administrada é recuperada na forma de metabólitos. O principal metabólito identificado no plasma humano é o valeril-4-hidróxi-valsartana, que é farmacologicamente inativo e representa cerca de 9% da dose circulante. Os estudos in vitro demonstraram que as enzimas do complexo do citocromo P450 (especificamente a isoenzima CYP2C9) são responsáveis pela formação deste metabólito minoritário. Contudo, a Valsartana não apresenta atividade inibidora ou indutora clinicamente relevante sobre as enzimas do CYP450, o que reduz substancialmente o risco de interações medicamentosas de base metabólica.

Excreção

A eliminação da Valsartana ocorre principalmente por via biliar e fecal, com uma menor contribuição da via renal. Após a administração oral, cerca de 83% da dose é excretada através das fezes e aproximadamente 13% é eliminada através da urina, majoritariamente como composto inalterado. A depuração plasmática total da Valsartana é de cerca de 2 L/h, e a sua depuração renal é de aproximadamente 0,62 L/h (representando cerca de 30% da depuração total). A meia-vida de eliminação terminal ($\beta_{1/2}$) da Valsartana é de aproximadamente 6 a 9 horas. No entanto, o seu efeito de bloqueio biológico sobre o receptor AT1 persiste por mais de 24 horas, garantindo o controle pressórico sustentado ao longo de todo o intervalo entre as doses.

Farmacodinâmica

A administração de uma dose única oral de Valsartana promove uma redução gradual e controlada da pressão arterial na maioria dos pacientes. O início da atividade anti-hipertensiva clinicamente detectável manifesta-se tipicamente dentro de 2 horas após a ingestão, atingindo a redução máxima da pressão arterial sistólica e diastólica entre 4 e 6 horas. O efeito terapêutico estende-se de forma eficaz por mais de 24 horas. O máximo benefício terapêutico e a estabilização dos níveis de pressão arterial em níveis ótimos são geralmente alcançados após 2 a 4 semanas de tratamento contínuo. A interrupção abrupta do tratamento com Valsartana não está associada ao fenômeno de “hipertensão de rebote” (elevação súbita e perigosa da pressão arterial acima dos níveis pré-tratamento).

Indicações Terapêuticas

A Valsartana possui indicações terapêuticas consolidadas por sólidas evidências científicas e aprovadas pelas principais agências regulatórias globais, incluindo a ANVISA no Brasil, o FDA nos Estados Unidos e a EMA na Europa.

1. Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS)

A Valsartana é indicada para o tratamento da hipertensão arterial sistêmica em adultos e crianças de 6 a 18 anos de idade. Pode ser utilizada como terapia farmacológica inicial (monoterapia) ou em combinação com outras classes de anti-hipertensivos (como diuréticos, bloqueadores dos canais de cálcio ou betabloqueadores). O controle rigoroso da pressão arterial com o uso da Valsartana reduz significativamente a incidência de eventos cardiovasculares maiores, como o Acidente Vascular Cerebral (AVC) fatal e não fatal, e o Infarto Agudo do Miocárdio (IAM).

2. Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC)

Indicada para o tratamento da insuficiência cardíaca (classes funcionais II a IV da New York Heart Association – NYHA) em pacientes que apresentam intolerância ou contraindicações formais ao uso de Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECAs). O histórico estudo clínico Val-HeFT demonstrou de forma inequívoca que a adição de Valsartana ao esquema terapêutico padrão reduziu significativamente as hospitalizações por insuficiência cardíaca e melhorou a qualidade de vida e a classe funcional dos pacientes, além de atenuar o processo de remodelamento cardíaco adverso (dilatação ventricular).

3. Pós-Infarto Agudo do Miocárdio (IAM)

Indicada para melhorar a sobrevida e reduzir a morbidade cardiovascular em pacientes clinicamente estáveis que apresentaram insuficiência ventricular esquerda (fração de ejeção menor ou igual a 40%) e/ou disfunção sistólica ventricular esquerda após um infarto agudo do miocárdio recente (ocorrido entre 12 horas e 10 dias antes do início do tratamento). O ensaio clínico de larga escala VALIANT comparou a Valsartana ao captopril (um IECA padrão-ouro) e à combinação de ambos em mais de 14.000 pacientes pós-infarto. Os resultados revelaram que a Valsartana foi tão eficaz quanto o captopril em reduzir a mortalidade por todas as causas e novos eventos cardiovasculares, consolidando-se como uma alternativa terapêutica de primeira linha para pacientes pós-IAM intolerantes a IECAs.

4. Usos Off-Label e Proteção Renal

Embora não conste formalmente como indicação primária em todas as bulas, a Valsartana é amplamente prescrita na prática clínica por seus efeitos de nefroproteção em pacientes com nefropatia diabética (decorrente de Diabetes Mellitus tipo 1 ou 2) associada à microalbuminúria ou macroalbuminúria. Ao promover a vasodilatação da arteríola eferente renal de forma mais acentuada do que a da arteríola aferente, a Valsartana reduz a pressão intraglomerular (hiperfiltração), diminuindo diretamente a excreção urinária de proteínas (proteinúria) e retardando a progressão da doença renal crônica terminal.

Posologia e Forma de Uso

A administração da Valsartana deve ser estritamente individualizada pelo médico assistente, levando em consideração a patologia a ser tratada, a gravidade da condição clínica, a presença de comorbidades e a resposta terapêutica obtida pelo paciente. Os comprimidos devem ser engolidos por via oral, inteiros, com o auxílio de água, preferencialmente sempre no mesmo horário do dia para otimizar a adesão ao tratamento.

Esquemas Posológicos Recomendados

  • Hipertensão Arterial Sistêmica (Adultos): A dose inicial recomendada é de 80 mg uma vez ao dia. Em pacientes cuja pressão arterial não for adequadamente controlada com essa dosagem, a dose pode ser aumentada para 160 mg uma vez ao dia, até o limite máximo de 320 mg uma vez ao dia. Se necessário, um diurético (como a hidroclorotiazida) ou outro anti-hipertensivo pode ser associado para potencializar o efeito.
  • Insuficiência Cardíaca: A dose inicial recomendada é de 40 mg duas vezes ao dia (totalizando 80 mg diários). A titulação da dose deve ser realizada progressivamente, duplicando-se a dose para 80 mg duas vezes ao dia e, posteriormente, para a dose alvo de 160 mg duas vezes ao dia (totalizando 320 mg diários), conforme a tolerabilidade hemodinâmica do paciente (monitorando-se a pressão arterial, a função renal e os níveis de potássio sérico).
  • Pós-Infarto Agudo do Miocárdio: O tratamento pode ser iniciado precocemente (dentro de 12 horas a 10 dias pós-evento) em pacientes hemodinamicamente estáveis. A dose inicial recomendada é de 20 mg duas vezes ao dia (pode ser obtida dividindo-se o comprimido sulcado de 40 mg). Esta dose deve ser gradualmente titulada ao longo de várias semanas para 40 mg, 80 mg e, finalmente, para a dose alvo de manutenção de 160 mg duas vezes ao dia, conforme tolerado pelo paciente.

Contraindicações

O uso da Valsartana é estritamente contraindicado em determinadas situações clínicas devido a riscos graves à saúde do paciente ou ao feto.

Contraindicações Absolutas

  • Hipersensibilidade: Pacientes com histórico documentado de hipersensibilidade alérgica à Valsartana ou a qualquer um dos excipientes presentes na formulação do comprimido.
  • Gravidez (Segundo e Terceiro Trimestres): A Valsartana é classificada na categoria D de risco na gravidez. O uso de fármacos que atuam diretamente sobre o SRAA durante o segundo e terceiro trimestres da gestação está associado a danos graves ao feto, incluindo toxicidade renal fetal, oligidrâmnio (redução do líquido amniótico), hipoplasia pulmonar secundária, atraso na ossificação do crânio fetal, hipotensão neonatal severa, anúria e óbito fetal ou neonatal.
  • Uso Concomitante com Aliscireno em Diabéticos: A coadministração de Valsartana com aliscireno (um inibidor direto da renina) é absolutamente contraindicada em pacientes com Diabetes Mellitus ou insuficiência renal moderada a grave (ritmo de filtração glomerular estimado – RFGe < 60 mL/min/1,73 m²), devido ao aumento expressivo do risco de hipotensão severa, hipercalemia e deterioração aguda da função renal.
  • Insuficiência Hepática Grave e Colestase: Pacientes com cirrose biliar, obstrução biliar ou colestase grave não devem utilizar Valsartana, uma vez que a principal via de eliminação do fármaco é a biliar/fecal.

Contraindicações Relativas e Precauções

  • Estenose Bilateral da Artéria Renal: Em pacientes que apresentam estenose bilateral da artéria renal ou estenose da artéria renal em rim único funcionante, o uso de Valsartana pode precipitar uma redução drástica na taxa de filtração glomerular, levando à insuficiência renal aguda grave. A filtração glomerular nesses pacientes depende crucialmente da vasoconstrição da artéria eferente mediada pela Angiotensina II, que é bloqueada pelo fármaco.
  • Depleção de Volume e Sódio: Pacientes em uso de doses elevadas de diuréticos, restrição rigorosa de sal na dieta, ou que apresentem quadros de diarreia ou vômitos persistentes, podem desenvolver hipotensão sintomática acentuada (tontura, síncope) ao iniciar o tratamento com Valsartana. A depleção de volume deve ser corrigida antes de iniciar a terapia.

Efeitos Colaterais

A Valsartana apresenta um excelente perfil de segurança e tolerabilidade. Na maioria dos estudos clínicos, a incidência global de eventos adversos associados ao uso de Valsartana foi comparável à observada com o uso de placebo.

Os efeitos colaterais mais comuns observados na prática clínica e em ensaios clínicos incluem:

  • Tontura e Hipotensão: Especialmente tontura postural (ortostática), ocorrendo de forma mais frequente em pacientes com insuficiência cardíaca ou pós-infarto do miocárdio durante a fase de titulação de dose.
  • Disfunção Renal: Elevações reversíveis nos níveis de ureia e creatinina séricas podem ocorrer, particularmente em pacientes cuja função renal dependa criticamente da integridade do SRAA (como pacientes com insuficiência cardíaca congestiva grave ou estenose renal).
  • Hipercalemia: Elevação dos níveis de potássio no sangue, observada principalmente em pacientes com insuficiência renal crônica preexistente, diabetes mellitus ou que fazem uso concomitante de suplementos de potássio ou diuréticos poupadores de potássio.
  • Cefaleia e Fadiga: Sintomas gerais inespecíficos relatados por uma pequena parcela dos pacientes.

Interações Medicamentosas

O uso concomitante de Valsartana com outras substâncias ativas requer monitoramento clínico e laboratorial cuidadoso para evitar a ocorrência de toxicidade ou a perda da eficácia terapêutica.

Interações Relevantes e Manejo Clínico

  • Diuréticos Poupadores de Potássio e Suplementos de Potássio: O uso concomitante de Valsartana com espironolactona, eplerenona, amilorida, triantereno ou suplementos contendo potássio (incluindo substitutos do sal de cozinha à base de potássio) aumenta significativamente o risco de hipercalemia grave (níveis séricos de potássio > 5,5 mEq/L). Essa condição pode induzir arritmias cardíacas potencialmente fatais. Se a associação for clinicamente necessária, recomenda-se a monitorização frequente do potássio sérico.
  • Anti-inflamatórios Não Esteroidais (AINEs): O uso concomitante de AINEs (como ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco) e inibidores seletivos da COX-2 (como celecoxibe) pode atenuar o efeito anti-hipertensivo da Valsartana. Além disso, em pacientes idosos, hipovolêmicos ou com função renal comprometida, a combinação de um AINE e um ARA II pode resultar no agravamento da função renal, incluindo a possibilidade de insuficiência renal aguda. Recomenda-se hidratação adequada e monitoramento periódico da função renal.
  • Lítio: Foram relatados aumentos reversíveis nas concentrações plasmáticas de lítio e manifestações de toxicidade por lítio durante o uso concomitante de inibidores da ECA ou ARA II. Portanto, recomenda-se a monitorização rigorosa dos níveis séricos de lítio (litemia) se essa associação for indispensável.
  • Duplo Bloqueio do SRAA: A combinação de Valsartana com um Inibidor da ECA (como ramipril, enalapril) ou com o aliscireno está associada a uma maior frequência de hipotensão severa, síncope, hipercalemia e insuficiência renal aguda, sem oferecer benefícios terapêuticos adicionais significativos na maioria dos pacientes. Essa prática deve ser evitada.

Uso em Populações Especiais

Certas subpopulações de pacientes apresentam características fisiológicas ou patológicas que alteram o comportamento farmacocinético da Valsartana ou aumentam a sua suscetibilidade a eventos adversos.

Gestantes e Lactantes

O uso de Valsartana é estritamente contraindicado durante a gestação. Se for detectada gravidez durante o tratamento, a Valsartana deve ser imediatamente descontinuada e substituída por uma alternativa terapêutica segura para gestantes (como metildopa, hidralazina ou nifedipino de liberação prolongada). Não se sabe se a Valsartana é excretada no leite materno humano, embora estudos em animais tenham demonstrado a passagem do fármaco para o leite. Devido ao potencial de reações adversas graves no lactente, recomenda-se descontinuar a amamentação ou interromper o uso do medicamento, pesando-se a importância do fármaco para a mãe.

Idosos

Não são necessários ajustes na dose inicial de Valsartana para pacientes idosos (acima de 65 anos). No entanto, devido à maior prevalência de disfunção renal, desidratação e uso de múltiplos medicamentos nesta faixa etária, o monitoramento da pressão arterial e da função renal deve ser conduzido com cautela redobrada.

Insuficiência Renal

Não há necessidade de ajuste posológico para pacientes com insuficiência renal leve a moderada (depuração de creatinina > 30 mL/min). Em pacientes com insuficiência renal grave (depuração de creatinina < 30 mL/min) ou submetidos à hemodiálise, a Valsartana deve ser utilizada com extrema cautela, sob monitoramento laboratorial rigoroso, pois os dados clínicos sobre a segurança do fármaco nestas populações são escassos. A Valsartana não é removida do sangue por hemodiálise devido à sua elevada taxa de ligação às proteínas plasmáticas.

Insuficiência Hepática

A Valsartana é eliminada principalmente sob a forma inalterada através da bile. Em pacientes com insuficiência hepática leve a moderada de etiologia não biliar e sem colestase, a depuração da Valsartana é reduzida. Nestes casos, a dose máxima administrada não deve exceder 80 mg ao dia.

Superdosagem

A manifestação clínica mais provável de uma superdosagem de Valsartana é a ocorrência de hipotensão arterial acentuada e profunda, que pode levar a tonturas intensas, colapso circulatório, choque cardiovascular e perda de consciência. Dependendo da magnitude da superdosagem e da resposta autonômica do paciente, pode ocorrer taquicardia reflexa ou bradicardia (esta última mediada por estimulação vagal excessiva).

Conduta Médica na Superdosagem

Não existe um antídoto específico para a Valsartana. O tratamento deve ser essencialmente de suporte e sintomático:

  1. Se a ingestão do medicamento tiver ocorrido recentemente, pode-se considerar a indução de vômito ou a realização de lavagem gástrica, seguida da administração de carvão ativado para reduzir a absorção gastrointestinal.
  2. O paciente deve ser colocado em posição supina (deitado de costas) com os membros inferiores elevados para favorecer o retorno venoso e a perfusão cerebral.
  3. Deve-se iniciar a infusão intravenosa rápida de solução salina isotônica (soro fisiológico a 0,9%) para restaurar o volume intravascular e elevar a pressão arterial.
  4. Se a hipotensão persistir mesmo após a expansão volêmica adequada, pode ser necessária a administração de agentes vasopressores (como a noradrenalina) para restabelecer o tônus vascular sistêmico.
  5. A eliminação da Valsartana por hemodiálise não é eficaz devido à sua alta ligação proteica plasmática.

☠️ Superdosagem (Overdose)

🚨 Em caso de superdosagem: ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro.

Medicamentos Genéricos e Similares

A patente da Valsartana expirou há vários anos, permitindo a entrada no mercado de uma ampla gama de medicamentos genéricos e similares equivalentes ao medicamento de referência original, o Diovan® (fabricado pela Novartis). No Brasil, para que um medicamento seja registrado como genérico ou similar equivalente pela ANVISA, o fabricante deve apresentar estudos rigorosos de bioequivalência e equivalência farmacêutica. Estes estudos garantem que o medicamento genérico possui exatamente a mesma velocidade e extensão de absorção no organismo que o medicamento de referência, assegurando idêntica eficácia terapêutica e perfil de segurança.

Os principais laboratórios farmacêuticos que produzem a Valsartana genérica no Brasil incluem:

  • Medley
  • EMS
  • Eurofarma
  • Aché
  • Neo Química
  • Biosintética

Dentre os medicamentos similares equivalentes (que possuem marca comercial própria, mas utilizam o mesmo princípio ativo e comprovaram equivalência terapêutica ao Diovan®), destacam-se:

  • Brasart® (Aché): Um dos similares mais prescritos no país, disponível em monoterapia e em associações com hidroclorotiazida ou anlodipino.
  • Vartaz® (Libbs): Outra alternativa amplamente utilizada para o tratamento da hipertensão arterial.
  • Aradois H® (Biolab): Embora a marca Aradois seja tradicionalmente associada à Losartana, a linha de produtos cardiovasculares da Biolab também oferece opções equivalentes.

Comparativo com Medicamentos da Mesma Classe

Os Antagonistas dos Receptores de Angiotensina II (ARA II) compartilham o mesmo mecanismo básico de ação, mas diferem significativamente em suas propriedades farmacocinéticas, potência de ligação e evidências clínicas acumuladas.

Abaixo, apresentamos uma comparação técnica entre a Valsartana e outros representantes importantes da classe:

  • Losartana: Foi o primeiro ARA II desenvolvido. Possui uma meia-vida curta (cerca de 2 horas), mas seu efeito é prolongado pela formação de um metabólito ativo (EXP3174) de maior potência. A Valsartana apresenta uma potência de bloqueio do receptor AT1 superior à da Losartana e não depende de metabolização hepática ativa para exercer seu efeito máximo.
  • Olmesartana: É considerada um dos ARA II mais potentes em termos de redução absoluta de milímetros de mercúrio (mmHg) na pressão arterial. No entanto, a Olmesartana está associada a um risco raro, porém grave, de enteropatia do tipo espru (diarreia crônica grave com perda de peso). A Valsartana apresenta um perfil de tolerabilidade gastrointestinal superior.
  • Telmisartana: Possui a maior meia-vida de eliminação da classe (cerca de 24 horas), o que garante um controle pressórico eficaz nas primeiras horas da manhã (período crítico com maior incidência de infartos e AVCs). A Telmisartana também possui atividade agonista parcial sobre os receptores PPAR-gama, melhorando a sensibilidade à insulina. A Valsartana, contudo, possui maior volume de evidências clínicas robustas no manejo específico da insuficiência cardíaca e do pós-infarto do miocárdio.
  • Candesartana: Apresenta uma dissociação extremamente lenta do receptor AT1 (“antagonismo insuperável”). É frequentemente utilizada na insuficiência cardíaca, assemelhando-se à Valsartana nos desfechos clínicos, mas com menor flexibilidade de apresentações associadas no mercado brasileiro.

Registro na ANVISA

A Valsartana está devidamente registrada e autorizada para comercialização em território nacional pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). O medicamento atende a todos os requisitos de segurança, eficácia e controle de qualidade exigidos pela legislação sanitária brasileira.

De acordo com a classificação regulatória da ANVISA, a Valsartana é enquadrada como um medicamento de venda sob prescrição médica (tarja vermelha). Para a sua aquisição em farmácias e drogarias, é necessária a apresentação da receita médica simples (via única, branca comum). Não há necessidade de retenção de receita ou notificação especial de receita, uma vez que o fármaco não pertence às listas de substâncias sob controle especial da Portaria SVS/MS nº 344/1998.

ANVISA — Agência Nacional de Vigilância Sanitária

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Perguntas Frequentes sobre Valsartana

Onde Comprar Valsartana?

A Valsartana pode ser adquirida em qualquer farmácia ou drogaria física e online devidamente credenciada pela ANVISA em todo o território nacional. Por se tratar de um medicamento essencial para o tratamento de doenças crônicas como a hipertensão arterial e a insuficiência cardíaca, a Valsartana está incluída na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) do Sistema Único de Saúde (SUS), podendo ser obtida gratuitamente em Unidades Básicas de Saúde (UBS), mediante disponibilidade de estoque local e apresentação de receita médica atualizada proveniente do SUS.

Adicionalmente, a Valsartana e suas principais associações (como Valsartana + Hidroclorotiazida) fazem parte do programa Farmácia Popular do Brasil. Através deste programa governamental, o paciente pode adquirir o medicamento com descontos significativos de até 90% ou mesmo de forma totalmente gratuita em drogarias privadas conveniadas que exibem o selo do programa, bastando apresentar o documento de identidade (RG), CPF e a receita médica válida (emitida por médico do SUS ou da rede privada).

O preço médio da Valsartana genérica varia conforme a dosagem (40 mg, 80 mg, 160 mg ou 320 mg), a quantidade de comprimidos por caixa (geralmente 30 ou 60 comprimidos) e o laboratório fabricante. Recomenda-se sempre realizar uma pesquisa de preços, uma vez que as variações entre as marcas de genéricos e os diferentes estabelecimentos comerciais podem ser expressivas. Ao comprar online, certifique-se de utilizar plataformas de farmácias autorizadas e seguras, que exijam o envio digitalizado ou a apresentação da receita médica no momento da entrega do produto.

Onde comprar Valsartana

Farmácias online parceiras. Confira preço e disponibilidade no site da loja.

  • Drogasmil
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Fonte e revisão

Conteúdo baseado no Bulário Eletrônico da ANVISA, disponível em consultas.anvisa.gov.br. Publicado em 24/08/2026 e revisado em 24/08/2026. Encontrou alguma divergência? Avise a gente.

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