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Antibióticos

Ciprofloxacino

25 min de leitura Atualizado em 09/08/2026 Base ANVISA

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O cloridrato de ciprofloxacino representa um dos maiores marcos da terapia antimicrobiana moderna. Desenvolvido no início da década de 1980, este agente terapêutico revolucionou o combate a uma vasta gama de infecções bacterianas, especialmente aquelas causadas por patógenos Gram-negativos de difícil tratamento. Pertencente à classe das fluoroquinolonas de segunda geração, o ciprofloxacino destaca-se por sua excelente biodisponibilidade oral, ampla penetração tecidual e perfil bactericida robusto, tornando-se uma ferramenta indispensável na infectologia clínica, na medicina interna e na urologia.

Apesar de sua indiscutível eficácia, o uso do ciprofloxacino exige profunda compreensão farmacológica por parte dos prescritores e conscientização por parte dos pacientes. Nas últimas décadas, o surgimento de mecanismos de resistência bacteriana e a identificação de efeitos adversos raros, porém graves, como danos tendíneos e alterações no intervalo QT, reposicionaram o medicamento em diretrizes clínicas globais. Este artigo técnico-científico detalha de forma minuciosa todos os aspectos farmacológicos, clínicos, posológicos e regulatórios do ciprofloxacino, servindo como um guia definitivo para profissionais de saúde e pacientes que buscam informação baseada em evidências científicas de alta qualidade.

O que é Ciprofloxacino?

O ciprofloxacino é um agente antibacteriano sintético de amplo espectro pertencente à classe das fluoroquinolonas. Quimicamente, trata-se do ácido 1-ciclopropil-6-fluoro-1,4-di-hidro-4-oxo-7-(1-piperazinil)-3-quinolinacarboxílico, frequentemente administrado na forma de cloridrato de ciprofloxacino para otimizar sua solubilidade e absorção pelo trato gastrointestinal.

A história do ciprofloxacino remonta à descoberta do ácido nalidíxico em 1962, a primeira quinolona utilizada clinicamente. No entanto, as quinolonas de primeira geração apresentavam espectro limitado e baixa concentração sistêmica. Foi a adição de um átomo de flúor na posição 6 do anel quinolônico (originando as fluoroquinolonas) e de um grupo piperazinila na posição 7 que conferiu ao ciprofloxacino uma potência significativamente maior contra bactérias Gram-negativas e uma penetração tecidual sem precedentes. Patenteado pela companhia farmacêutica alemã Bayer em 1981 e aprovado pelo FDA (Food and Drug Administration) em 1987, o medicamento rapidamente se tornou um dos antibióticos mais prescritos no mundo.

No Brasil, o ciprofloxacino é aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e está amplamente disponível no mercado farmacêutico em diversas apresentações, o que confere grande versatilidade ao tratamento de infecções ambulatoriais e hospitalares. As principais formas farmacêuticas comercializadas no país incluem:

  • Comprimidos revestidos: nas concentrações de 250 mg e 500 mg, indicados para uso oral de liberação imediata.
  • Comprimidos de liberação prolongada (XR): na concentração de 500 mg e 1000 mg, permitindo a administração em dose única diária para indicações específicas, como infecções urinárias não complicadas.
  • Solução para infusão intravenosa: geralmente disponível em bolsas de 100 mL contendo 200 mg ou 200 mL contendo 400 mg de ciprofloxacino, amplamente utilizada em ambiente nosocomial.
  • Suspensão oral: utilizada principalmente em pediatria para casos específicos autorizados.
  • Formulações tópicas: incluindo gotas oftálmicas e otológicas (isoladas ou associadas a corticosteroides), destinadas ao tratamento de conjuntivites bacterianas, úlceras de córnea e otite externa.

Mecanismo de Ação

O ciprofloxacino exerce uma ação bactericida rápida e potente através da inibição seletiva de enzimas bacterianas essenciais para a replicação, transcrição, reparo e recombinação do DNA. Os alvos moleculares primários do ciprofloxacino são duas topoisomerases do tipo II:

  1. DNA Girase (Topoisomerase II bacteriana): Esta enzima é responsável por introduzir superenrolamentos negativos na dupla hélice de DNA, um processo crucial para aliviar a tensão de torção gerada à frente da forquilha de replicação do DNA. A DNA girase é composta por duas subunidades GyrA e duas GyrB. O ciprofloxacino liga-se especificamente ao complexo DNA-DNA girase, bloqueando a etapa de religação das fitas de DNA após a clivagem, o que resulta em quebras de fita dupla no cromossomo bacteriano. Este é o alvo principal nas bactérias Gram-negativas.
  2. Topoisomerase IV: Composta pelas subunidades ParC e ParE (em Escherichia coli) ou GrlA e GrlB (em Staphylococcus aureus), esta enzima desempenha um papel fundamental na separação (decatenação) das moléculas de DNA circular replicadas e interligadas antes da divisão celular. O ciprofloxacino interfere neste processo, impedindo a segregação cromossômica e interrompendo o ciclo de divisão celular bacteriana. Este é o alvo preferencial na maioria das bactérias Gram-positivas.

A formação de complexos ternários estáveis (DNA-enzima-quinolona) impede o avanço da maquinaria de replicação e transcrição. A incapacidade da bactéria de reparar as quebras induzidas no DNA ativa vias de sinalização de estresse celular (como a resposta SOS bacteriana) que culminam na morte celular programada (lise bacteriana), caracterizando o efeito bactericida do fármaco.

Devido à alta seletividade do ciprofloxacino pelas enzimas bacterianas, as topoisomerases de células eucarióticas humanas não são afetadas nas concentrações terapêuticas do medicamento, garantindo a segurança sistêmica do paciente.

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Farmacocinética e Farmacodinâmica

O perfil farmacocinético do ciprofloxacino é caracterizado por uma excelente absorção oral, ampla distribuição biológica e eliminação por vias mistas, o que o torna um fármaco altamente previsível e eficaz.

Absorção

Após a administração oral, o cloridrato de ciprofloxacino é rapidamente e quase completamente absorvido pelo trato gastrointestinal, principalmente no duodeno e jejuno. A biodisponibilidade absoluta do fármaco está entre 70% e 80%, sofrendo um efeito de primeira passagem hepática mínimo. O pico de concentração plasmática (Cmax) é atingido entre 1 e 2 horas após a ingestão de uma dose oral em jejum. A ingestão concomitante de alimentos não reduz significativamente a extensão da absorção (AUC), mas pode atrasar ligeiramente o tempo para atingir a Cmax (Tmax).

Distribuição

O ciprofloxacino apresenta um volume de distribuição aparente elevado (aproximadamente 2 a 3 L/kg), refletindo sua baixa taxa de ligação às proteínas plasmáticas (20% a 40%) e sua alta lipofilicidade. O fármaco penetra excepcionalmente bem na maioria dos tecidos e fluidos corporais. Concentrações superiores às plasmáticas são rotineiramente encontradas no tecido prostático, parênquima renal, pulmões, mucosa brônquica, bile, fluido seminal, ossos e líquido peritoneal. Adicionalmente, o ciprofloxacino acumula-se intracelularmente em macrófagos e neutrófilos, atingindo concentrações até 10 vezes superiores às extracelulares, o que é de extrema relevância no tratamento de patógenos intracelulares como Legionella e Chlamydia. A penetração no líquido cefalorraquidiano (LCR) é moderada na ausência de inflamação das meninges, mas aumenta significativamente na presença de meningite ativa.

Metabolismo e Eliminação

O metabolismo do ciprofloxacino ocorre parcialmente no fígado (cerca de 15% a 20% da dose administrada). Foram identificados quatro metabólitos ativos com menor potência antimicrobiana que o composto original: dietilenciprofloxacino (M1), sulfociprofloxacino (M2), oxociprofloxacino (M3) e formilciprofloxacino (M4). O ciprofloxacino atua como um inibidor moderado da isoenzima CYP1A2 do citocromo P450, o que fundamenta diversas interações medicamentosas clinicamente relevantes.

A meia-vida de eliminação plasmática em adultos com função renal normal varia de 3 a 5 horas, podendo ser prolongada para até 12 horas em pacientes com insuficiência renal terminal. A eliminação é realizada por vias renais e não renais:

  • Via Renal (50% a 70%): Ocorre por filtração glomerular e secreção tubular ativa (através de transportadores de cátions orgânicos). Cerca de 40% a 50% de uma dose oral é recuperada inalterada na urina nas primeiras 24 horas, garantindo concentrações urinárias extremamente elevadas, muito acima da Concentração Inibitória Mínima (CIM) para a maioria dos patógenos urinários.
  • Via Não Renal (20% a 30%): Envolve a excreção biliar e a eliminação transintestinal ativa direta através da mucosa do intestino delgado para o lúmen intestinal. Os metabólitos são excretados principalmente por via fecal.

Parâmetros Farmacodinâmicos (PK/PD)

Como um antibiótico fluoroquinolônico, o ciprofloxacino exibe atividade bactericida dependente de concentração. O principal índice PK/PD correlacionado com a eficácia clínica e bacteriológica é a razão entre a Área Sob a Curva de concentração plasmática versus tempo nas 24 horas e a Concentração Inibitória Mínima do patógeno (AUC0-24/CIM). Para patógenos Gram-negativos, uma razão AUC/CIM ≥ 125 é preditiva de sucesso terapêutico e prevenção do surgimento de resistência bacteriana. Para patógenos Gram-positivos, uma razão AUC/CIM ≥ 30 a 50 é geralmente considerada adequada.

Indicações Terapêuticas

O ciprofloxacino possui um espectro de ação focado principalmente em bactérias Gram-negativas aeróbias, apresentando atividade moderada contra Gram-positivos e atividade limitada contra bactérias anaeróbias. As indicações clínicas aprovadas pela ANVISA refletem esse perfil microbiológico:

Infecções do Trato Urinário (ITU)

É uma das indicações mais comuns, embora as diretrizes atuais recomendem poupar as fluoroquinolonas em ITUs não complicadas devido ao risco de efeitos adversos graves. É indicado para:

  • Cistite aguda não complicada em mulheres (quando outras opções terapêuticas não são recomendadas).
  • Infecções complicadas do trato urinário, incluindo pielonefrite aguda causada por Escherichia coli, Klebsiella pneumoniae, Proteus mirabilis e Pseudomonas aeruginosa.
  • Prostatite bacteriana crônica, onde a alta penetração no tecido prostático confere ao ciprofloxacino uma vantagem terapêutica significativa sobre outros antimicrobianos.

Infecções do Trato Respiratório

O ciprofloxacino não é considerado uma “quinolona respiratória” típica (como a levofloxacina ou moxifloxacina) devido à sua atividade moderada contra Streptococcus pneumoniae. No entanto, é indicado em:

  • Exacerbações agudas de bronquite crônica causadas por Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis ou Pseudomonas aeruginosa.
  • Pneumonia nosocomial ou pneumonia associada à ventilação mecânica, frequentemente em terapia combinada para cobertura de Pseudomonas aeruginosa.
  • Infecções broncopulmonares na fibrose cística (geralmente causadas por Pseudomonas aeruginosa), tanto em adultos quanto em crianças (sob estrita avaliação de risco-benefício).

Infecções Intra-abdominais e Gastrointestinais

  • Infecções intra-abdominais complicadas (por exemplo, peritonite, abscessos intra-abdominais), obrigatoriamente associado a um agente com cobertura anaeróbia, como o metronidazol.
  • Diarreia infecciosa grave causada por patógenos enteropatogênicos como Shigella spp., Salmonella spp., Campylobacter jejuni e Escherichia coli enterotoxigênica (diarreia do viajante).
  • Febre tifoide e paratifoide causadas por Salmonella enterica sorotipo Typhi.

Infecções Osteoarticulares e de Tecidos Moles

  • Osteomielite aguda ou crônica, onde o tratamento prolongado se beneficia da alta biodisponibilidade oral do ciprofloxacino, permitindo a transição precoce da terapia intravenosa para a oral.
  • Infecções complicadas da pele e estruturas moles causadas por patógenos Gram-negativos sensíveis.

Outras Indicações Especializadas

  • Profilaxia de Infecções Meningocócicas: Eliminação de portadores sadios de Neisseria meningitidis na nasofaringe para prevenir a disseminação da meningite meningocócica.
  • Neutropenia Febril: Utilizado em regime empírico associado a outros agentes de amplo espectro em pacientes oncológicos imunocomprometidos.
  • Antraz Inalatório (Profilaxia pós-exposição e tratamento): Indicado para reduzir a incidência ou progressão da doença após exposição ao Bacillus anthracis.

Posologia e Forma de Uso

A administração do ciprofloxacino deve ser estritamente individualizada com base na gravidade da infecção, no sítio anatômico acometido, na sensibilidade do patógeno causal, na idade e no peso do paciente, bem como na sua função renal.

Os comprimidos devem ser engolidos inteiros com quantidade suficiente de líquido (aproximadamente um copo de água), independentemente das refeições. Não devem ser mastigados, triturados ou partidos. Recomenda-se evitar a ingestão conjunta de laticínios ou bebidas enriquecidas com cálcio, pois reduzem significativamente a absorção do fármaco.

Ajuste Posológico na Insuficiência Renal

Como o ciprofloxacino é amplamente eliminado por via renal, o acúmulo do fármaco pode ocorrer em pacientes com disfunção renal significativa, aumentando o risco de neurotoxicidade e outros efeitos adversos graves. O ajuste posológico deve ser realizado com base no clearance de creatinina (ClCr):

  • ClCr entre 31 e 60 mL/min/1,73m²: A dose máxima por via oral deve ser de 500 mg a cada 12 horas, ou 400 mg a cada 12 horas por via intravenosa.
  • ClCr inferior a 30 mL/min/1,73m²: A dose deve ser reduzida para 250 mg a 500 mg a cada 24 horas por via oral, ou 200 mg a 400 mg a cada 24 horas por via intravenosa.
  • Pacientes em hemodiálise ou diálise peritoneal: Administrar a dose recomendada para insuficiência renal grave (250 mg a 500 mg a cada 24 horas) apenas após a realização da sessão de diálise, para compensar a perda do fármaco durante o procedimento.

Contraindicações

O uso do ciprofloxacino é contraindicado em situações clínicas específicas onde o risco de toxicidade supera substancialmente qualquer benefício terapêutico potencial:

Contraindicações Absolutas

  • Hipersensibilidade conhecida: Pacientes com histórico de reações alérgicas graves (como anafilaxia, angioedema, síndrome de Stevens-Johnson ou necrólise epidérmica tóxica) ao ciprofloxacino, a qualquer outra fluoroquinolona (como levofloxacina, moxifloxacina, norfloxacina) ou a qualquer componente da formulação.
  • Uso concomitante com Tizanidina: O ciprofloxacino é um inibidor potente da enzima CYP1A2. A tizanidina (um relaxante muscular de ação central) é metabolizada quase exclusivamente por esta via. A coadministração resulta em um aumento dramático nas concentrações plasmáticas de tizanidina (aumento de até 10 vezes na AUC), o que pode provocar hipotensão arterial grave, bradicardia, sonolência profunda e depressão respiratória.

Contraindicações Relativas e Precauções

  • Histórico de distúrbios tendíneos: Pacientes que desenvolveram tendinite ou ruptura de tendão associada ao uso prévio de fluoroquinolonas apresentam risco significativamente maior de recorrência.
  • Miastenia Gravis: As fluoroquinolonas possuem atividade bloqueadora neuromuscular e podem exacerbar a fraqueza muscular em pacientes com miastenia gravis, podendo precipitar crises respiratórias agudas que necessitam de suporte ventilatório.
  • Prolongamento do Intervalo QT: Deve ser evitado em pacientes com prolongamento congênito ou adquirido do intervalo QT, distúrbios eletrolíticos não corrigidos (hipocalemia, hipomagnesemia) ou em uso de outros fármacos que prolongam o intervalo QT (como antiarrítmicos das classes IA e III, antidepressivos tricíclicos, macrolídeos e antipsicóticos), devido ao risco de arritmias ventriculares graves, incluindo Torsades de Pointes.

Efeitos Colaterais

Embora o ciprofloxacino seja geralmente bem tolerado pela maioria dos pacientes, sua administração sistêmica pode desencadear uma ampla gama de efeitos adversos, variando de sintomas gastrointestinais leves a reações multissistêmicas graves de relevância clínica.

Em 2018, agências reguladoras internacionais (como o FDA e a EMA) e a ANVISA emitiram alertas robustos restringindo o uso de fluoroquinolonas devido ao risco de efeitos colaterais incapacitantes e potencialmente permanentes envolvendo os sistemas musculoesquelético e nervoso periférico.

Efeitos Adversos de Destaque Clínico

  • Toxicidade Musculoesquelética (Tendinite e Ruptura de Tendão): O ciprofloxacino pode causar inflamação e ruptura de tendões, afetando mais frequentemente o tendão de Aquiles, de forma bilateral em até 50% dos casos. Esse efeito pode ocorrer nas primeiras 48 horas de tratamento ou até vários meses após a interrupção da terapia. O mecanismo envolve o estresse oxidativo celular e a quelação de íons magnésio, levando à degradação do colágeno nos tecidos tendíneos. O risco é acentuado em idosos, usuários de corticosteroides sistêmicos e transplantados de órgãos sólidos.
  • Neuropatia Periférica: Sintomas de dor, queimação, formigamento, dormência ou fraqueza muscular podem surgir rapidamente após o início do tratamento e podem se tornar permanentes. O medicamento deve ser descontinuado imediatamente se o paciente apresentar sintomas neurológicos periféricos.
  • Efeitos no Sistema Nervoso Central: As quinolonas atuam como antagonistas dos receptores do ácido gama-aminobutírico (GABA) no cérebro e podem estimular excessivamente o SNC, provocando tremores, alucinações, pesadelos, ansiedade extrema, depressão com ideação suicida e convulsões (especialmente em pacientes com histórico de epilepsia ou em uso concomitante de anti-inflamatórios não esteroidais).
  • Aneurisma e Dissecção da Aorta: Estudos epidemiológicos demonstraram um aumento do risco de ruptura ou dissecção de aneurisma de aorta em pacientes tratados com fluoroquinolonas sistêmicas, associado à degradação do colágeno na parede arterial. Deve ser prescrito com extrema cautela em pacientes com doença vascular aterosclerótica, hipertensão arterial não controlada ou síndromes genéticas como Marfan e Ehlers-Danlos.
  • Disglicemia Grave: Podem ocorrer flutuações severas nos níveis de glicose sanguínea, incluindo hiperglicemia e hipoglicemia sintomática profunda (coma hipoglicêmico), principalmente em pacientes diabéticos idosos que utilizam hipoglicemiantes orais (como sulfonilureias) ou insulina.

Interações Medicamentosas

O ciprofloxacino apresenta um perfil complexo de interações medicamentosas, decorrente de suas propriedades físico-químicas (como a capacidade de quelar cátions metálicos) e de seu efeito inibitório sobre enzimas metabolizadoras no fígado.

Interações de Absorção (Quelação)

A absorção oral do ciprofloxacino é drasticamente reduzida quando administrado concomitantemente com fármacos ou suplementos que contêm cátions di ou trivalentes. O ciprofloxacino forma complexos de coordenação insolúveis (quelatos) com esses íons no lúmen intestinal, impedindo sua passagem pela membrana mucosa:

  • Antiácidos e Protetores Gástricos: Contendo hidróxido de alumínio, hidróxido de magnésio ou carbonato de cálcio.
  • Suplementos Minerais: Sulfato ferroso, zinco, magnésio e cálcio.
  • Sucralfato: Agente protetor da mucosa gástrica que contém alumínio em sua estrutura.
  • Didanosina (antirretroviral): Formulações tamponadas que contêm magnésio ou alumínio.

Manejo: O ciprofloxacino deve ser administrado pelo menos 2 horas antes ou 6 horas após a ingestão de qualquer um desses agentes.

Interações Metabólicas (Inibição do CYP1A2)

Ao inibir a isoenzima CYP1A2, o ciprofloxacino reduz a depuração hepática de vários fármacos de estreito índice terapêutico, elevando seus níveis plasmáticos e o risco de toxicidade grave:

  • Teofilina e Aminofilina (broncodilatadores): O aumento das concentrações plasmáticas de teofilina pode provocar náuseas, vômitos, arritmias cardíacas graves e convulsões potencialmente fatais. Se o uso concomitante for inevitável, as doses de teofilina devem ser reduzidas e seus níveis séricos monitorados rigorosamente.
  • Cofeína: A depuração da cafeína é significativamente reduzida, prolongando sua meia-vida de eliminação. Pacientes podem apresentar palpitações, insônia, ansiedade e tremores.
  • Duloxetina e Clozapina: O ciprofloxacino aumenta a exposição sistêmica a esses psicotrópicos, elevando o risco de efeitos colaterais neurológicos e cardiovasculares.

Outras Interações Importantes

  • Varfarina e outros Anticoagulantes Orais: O ciprofloxacino pode potencializar a ação anticoagulante da varfarina através da alteração da flora intestinal produtora de vitamina K e do deslocamento de proteínas plasmáticas. Recomenda-se a monitorização frequente do RNI (Relação Normalizada Internacional) durante e logo após o tratamento.
  • Ciclosporina: Foi observado um aumento transitório na concentração de creatinina sérica quando administrado concomitantemente com ciclosporina. Recomenda-se monitorar a função renal e os níveis plasmáticos de ciclosporina.
  • Metotrexato: O ciprofloxacino pode inibir o transporte tubular renal de metotrexato, aumentando potencialmente seus níveis plasmáticos e elevando o risco de toxicidade hematológica e renal grave.

Uso em Populações Especiais

O perfil de segurança do ciprofloxacino varia consideravelmente em determinados grupos populacionais, exigindo protocolos diferenciados de prescrição e monitoramento clínico.

Gestantes e Lactantes

O ciprofloxacino é classificado na categoria C de risco na gravidez. Os dados de estudos em animais demonstraram indução de artropatia e danos nas cartilagens articulares de fetos em desenvolvimento. Embora estudos epidemiológicos em humanos não tenham demonstrado de forma inequívoca um aumento no risco de malformações congênitas maiores ou aborto espontâneo, o uso de ciprofloxacino durante a gestação deve ser evitado, reservando-se apenas para situações extremas onde não existam alternativas terapêuticas seguras (como na exposição ao antraz).

O ciprofloxacino é excretado no leite materno em concentrações significativas. Devido ao risco teórico de danos articulares e alterações na flora intestinal do lactente, o aleitamento materno deve ser descontinuado durante o tratamento com ciprofloxacino, ou deve-se optar por uma alternativa terapêutica compatível com a amamentação.

Pediatria

O uso de ciprofloxacino em crianças e adolescentes (menores de 18 anos) é geralmente restrito devido à toxicidade articular observada em animais jovens (artropatia por fluoroquinolonas). No entanto, o uso pediátrico é formalmente aprovado e considerado seguro em cenários clínicos específicos onde os benefícios superam os riscos osteoarticulares:

  • Tratamento de infecções pulmonares agudas por Pseudomonas aeruginosa em pacientes pediátricos com fibrose cística (idade entre 5 e 17 anos).
  • Infecções complicadas do trato urinário e pielonefrite aguda causadas por Escherichia coli (idade entre 1 e 17 anos).
  • Profilaxia pós-exposição e tratamento de antraz inalatório.

A monitorização de eventos adversos articulares (como dor nas articulações, efusão articular ou limitação de movimentos) é obrigatória nesses pacientes.

Idosos

Os idosos apresentam maior suscetibilidade a diversos efeitos colaterais do ciprofloxacino. Este grupo populacional apresenta maior risco de desenvolver ruptura de tendão (especialmente se em uso de corticosteroides), prolongamento do intervalo QT com arritmias graves, dissecção de aorta e episódios de delírio ou confusão mental aguda. Além disso, devido ao declínio fisiológico da função renal associado ao envelhecimento, a depuração do fármaco pode estar reduzida, necessitando de avaliação criteriosa do clearance de creatinina e ajuste posológico.

Insuficiência Hepática

Como o metabolismo hepático do ciprofloxacino é uma via secundária de eliminação, alterações leves a moderadas na função hepática não requerem ajuste posológico inicial. No entanto, em pacientes com insuficiência hepática grave (com cirrose descompensada, ascite ou encefalopatia hepática), recomenda-se monitoramento clínico rigoroso das enzimas hepáticas e das funções de síntese biliar.

Superdosagem

A superdosagem aguda com ciprofloxacino pode resultar em toxicidade multissistêmica, afetando principalmente os rins e o sistema nervoso central.

Sintomas de Intoxicação

Os principais sinais e sintomas relatados em casos de superdosagem incluem:

  • Náuseas severas, vômitos e diarreia.
  • Cefaleia intensa, tontura, confusão mental, tremores e agitação psicomotora.
  • Em casos graves, podem ocorrer alucinações, convulsões e prolongamento do intervalo QT com risco de arritmias ventriculares.
  • Insuficiência renal aguda por nefrite intersticial ou cristalúria (deposição de cristais de ciprofloxacino nos túbulos renais, favorecida pelo pH urinário alcalino).

Tratamento e Conduta Médica

Não existe um antídoto específico para a intoxicação por ciprofloxacino. O manejo clínico baseia-se em medidas de suporte geral e descontaminação gastrointestinal:

  1. Descontaminação: A indução de vômitos ou lavagem gástrica pode ser considerada se realizada logo após a ingestão de uma dose maciça. A administração de carvão ativado é eficaz para reduzir a absorção sistêmica do fármaco.
  2. Uso de Cátions: A administração de soluções orais contendo cálcio ou magnésio (como antiácidos) pode ser útil para quelar o ciprofloxacino remanescente no estômago, diminuindo sua biodisponibilidade.
  3. Função Renal e Hidratação: Recomenda-se monitorar rigorosamente a função renal e manter o paciente intensamente hidratado para promover a diurese e evitar a formação de cristalúria. O pH urinário deve ser mantido ácido, se possível, para aumentar a solubilidade do ciprofloxacino.
  4. Monitorização Cardíaca: A realização de eletrocardiograma (ECG) contínuo é mandatória para monitorar o intervalo QT e detectar precocemente arritmias ventriculares.
  5. Depuração Extracorpórea: A hemodiálise ou diálise peritoneal removem apenas uma fração mínima do ciprofloxacino circulante (menos de 10%), devido ao seu elevado volume de distribuição tecidual, não sendo métodos eficientes para acelerar a depuração do fármaco em casos de superdosagem.

☠️ Superdosagem (Overdose)

🚨 Em caso de superdosagem: ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro.

Medicamentos Genéricos e Similares

O ciprofloxacino foi introduzido no mercado brasileiro sob a marca de referência Cipro®, desenvolvida pela Bayer. Com a expiração da patente, a ANVISA autorizou a fabricação de medicamentos genéricos e similares, ampliando o acesso da população ao tratamento através de opções de menor custo, mantendo os mesmos padrões de eficácia, segurança e qualidade.

Para obter o registro de medicamento genérico no Brasil, o fabricante deve submeter o produto a rigorosos testes de bioequivalência in vivo e equivalência farmacêutica in vitro. Esses testes garantem que o genérico apresente a mesma taxa e extensão de absorção (AUC e Cmax) que o medicamento de referência quando administrado na mesma dose, assegurando idêntico comportamento clínico.

Os principais laboratórios farmacêuticos que comercializam o cloridrato de ciprofloxacino genérico no Brasil incluem a Medley, EMS, Eurofarma, Neo Química, Germed, Prati-Donaduzzi e Biosintética. Entre as marcas de medicamentos similares de alta qualidade (conhecidos como similares equivalentes ou intercambiáveis) destacam-se:

  • Proflox® (Eurofarma)
  • Quinoflox® (Teuto)
  • Ciprobiot® (Diffucap-Chemobras)
  • Ciprocilin® (Belo Farma)

Comparativo com Medicamentos da Mesma Classe

O ciprofloxacino pertence à classe das fluoroquinolonas, que é subdividida em gerações de acordo com o espectro de atividade bacteriana. A escolha clínica entre o ciprofloxacino e outros membros da classe baseia-se principalmente no foco infeccioso e no perfil do patógeno suspeito.

Diferenças Clínicas Principais

  • Ciprofloxacino vs. Norfloxacina: A norfloxacina é uma fluoroquinolona de primeira/segunda geração com baixa absorção sistêmica e baixa penetração tecidual. Sua atuação limita-se quase que exclusivamente ao trato urinário e gastrointestinal. O ciprofloxacino possui absorção sistêmica muito superior, permitindo o tratamento de infecções profundas e sistêmicas (ósseas, pulmonares, intra-abdominais).
  • Ciprofloxacino vs. Levofloxacina: A levofloxacina é uma fluoroquinolona de terceira geração, frequentemente chamada de “quinolona respiratória”. Possui atividade muito superior contra Gram-positivos (especialmente Streptococcus pneumoniae) e patógenos atípicos (como Mycoplasma pneumoniae e Legionella pneumophila), sendo a escolha preferencial para pneumonia comunitária. No entanto, o ciprofloxacino mantém uma potência ligeiramente superior contra a Pseudomonas aeruginosa.
  • Ciprofloxacino vs. Moxifloxacina: A moxifloxacina é uma fluoroquinolona de quarta geração com excelente atividade contra bactérias Gram-positivas e anaeróbios estritos (como Bacteroides fragilis), eliminando a necessidade de associação com metonidizol em infecções intra-abdominais. Contudo, a moxifloxacina não atinge concentrações terapêuticas na urina (sendo eliminada majoritariamente por via biliar), sendo contraindicada para o tratamento de infecções urinárias, onde o ciprofloxacino se destaca.

Registro na ANVISA

No Brasil, o cloridrato de ciprofloxacino é registrado e regulado pela ANVISA, enquadrando-se na categoria de medicamentos sob prescrição médica com retenção de receita.

De acordo com a Resolução de Diretoria Colegiada – RDC nº 20, de 5 de maio de 2011, que dispõe sobre o controle de medicamentos antimicrobianos, a venda do ciprofloxacino é estritamente condicionada à apresentação da Receita de Controle Especial (ou receita comum em duas vias). A primeira via da receita fica retida no estabelecimento farmacêutico para escrituração no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), enquanto a segunda via é devolvida carimbada ao paciente como comprovante de dispensação.

A validade da receita de ciprofloxacino é de 10 dias a contar da data de sua emissão, podendo conter o tratamento para no máximo 90 dias de uso. Essa regulação visa coibir a automedicação e o uso indiscriminado de antibióticos, fatores que contribuem diretamente para o avanço da resistência bacteriana global.

ANVISA — Agência Nacional de Vigilância Sanitária

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Perguntas Frequentes sobre Ciprofloxacino

Onde Comprar Ciprofloxacino?

O ciprofloxacino pode ser adquirido em qualquer farmácia de manipulação, drogaria comercial ou rede de farmácias de grande porte em todo o território nacional, desde que o cliente apresente a receita médica em duas vias dentro do prazo de validade de 10 dias.

O preço do ciprofloxacino varia de acordo com a apresentação (comprimidos de 250 mg ou 500 mg, caixas com 7, 10, 14 ou 28 comprimidos), a marca (referência, similar ou genérico) e a região do país. Em média, o custo do tratamento com ciprofloxacino genérico de 500 mg (caixa com 14 comprimidos, ideal para 7 dias de tratamento) varia entre R$ 15,00 e R$ 45,00. Já o medicamento de referência (Cipro®) apresenta valores mais elevados, oscilando entre R$ 60,00 e R$ 130,00 para a mesma quantidade de comprimidos.

O ciprofloxacino também está disponível gratuitamente ou com copagamento reduzido em algumas unidades do programa Farmácia Popular do Brasil ou diretamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS/SUS) mediante a apresentação de receita médica emitida pelo Sistema Único de Saúde ou rede privada.

Onde comprar Ciprofloxacino

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Fonte e revisão

Conteúdo baseado no Bulário Eletrônico da ANVISA, disponível em consultas.anvisa.gov.br. Publicado em 09/08/2026 e revisado em 09/08/2026. Encontrou alguma divergência? Avise a gente.

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