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O controle de distúrbios de ansiedade e de quadros de agitação psicomotora representa um dos maiores desafios da prática clínica contemporânea, tanto na atenção primária quanto no ambiente hospitalar de urgência. Entre as ferramentas farmacológicas disponíveis, o lorazepam destaca-se como um dos benzodiazepínicos mais versáteis, seguros e amplamente prescritos em todo o mundo. Caracterizado por sua potência elevada, meia-vida intermediária e um perfil metabólico singular que o diferencia de outros fármacos de sua classe, o lorazepam desempenha um papel crucial no manejo de crises agudas de ansiedade, insônia grave, abstinência alcoólica, espasmos musculares e até mesmo no controle de crises epilépticas refratárias (status epilepticus).
Apesar de sua inegável eficácia terapêutica, o uso do lorazepam exige um profundo conhecimento farmacológico por parte dos prescritores e uma conscientização rigorosa por parte dos pacientes. Por atuar diretamente no sistema nervoso central (SNC), seu uso inadequado, prolongado ou sem a devida supervisão médica pode acarretar riscos significativos, incluindo o desenvolvimento de tolerância, dependência física e psíquica, além de uma síndrome de abstinência potencialmente grave. Este artigo técnico-científico foi elaborado com o objetivo de detalhar de forma exaustiva todas as propriedades do lorazepam, desde sua base molecular até as diretrizes clínicas de uso seguro, servindo como um guia definitivo para profissionais de saúde e pacientes que buscam informações confiáveis e baseadas em evidências.
O que é Lorazepam?
O lorazepam é um fármaco pertencente à classe dos benzodiazepínicos, um grupo de compostos químicos que compartilham uma estrutura de anel benzênico fusionado a um anel de diazepina. Sintetizado originalmente na década de 1960 pela empresa farmacêutica Wyeth, o lorazepam foi introduzido no mercado global sob o nome comercial de Ativan (e posteriormente como Lorax no Brasil), rapidamente se consolidando como um padrão ouro para o tratamento de curto prazo de manifestações de ansiedade severa e estados de tensão extrema.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) classifica o lorazepam como uma substância sob controle especial, enquadrada na Portaria SVS/MS nº 344/1998. Ele está disponível comercialmente em farmácias de dispensação sob a forma de comprimidos de 1 mg e 2 mg, exigindo a Notificação de Receita B (receita azul). Em ambiente hospitalar, o lorazepam também é disponibilizado na forma injetável (solução injetável para administração intramuscular ou intravenosa), sendo amplamente utilizado para sedação pré-anestésica, controle de agitação psicomotora aguda e manejo emergencial de convulsões.
A grande distinção do lorazepam em relação a outros benzodiazepínicos clássicos, como o diazepam, reside em sua estrutura química molecular (que inclui um grupo orto-cloro no anel fenílico). Essa modificação estrutural confere ao fármaco uma maior afinidade pelos receptores cerebrais e um metabolismo simplificado, que não gera metabólitos ativos de longa duração. Isso significa que o lorazepam possui um início de ação rápido a intermediário e uma depuração corporal mais previsível, tornando-o especialmente útil em pacientes que necessitam de um controle rápido dos sintomas sem o risco de acúmulo excessivo da droga no organismo.
Mecanismo de Ação
O mecanismo de ação do lorazepam baseia-se na facilitação da neurotransmissão inibitória mediada pelo ácido gama-aminobutírico (GABA), que é o principal neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central dos mamíferos. Ao contrário de outras classes de drogas que ativam receptores diretamente, o lorazepam atua como um modulador alostérico positivo do complexo receptor GABA-A.
O receptor GABA-A é um canal iônico pentamérico seletivo para cloretos, composto por várias subunidades (geralmente duas alfa, duas beta e uma gama). O lorazepam liga-se especificamente a um sítio alostérico distinto (o “sítio benzodiazepínico”) localizado na interface entre as subunidades alfa ($\alpha$) e gama ($\gamma$) do receptor. A ligação do lorazepam a este sítio não ativa diretamente o canal de cloro, mas induz uma mudança conformacional que aumenta significativamente a afinidade do receptor pelo neurotransmissor endógeno GABA.
Quando o GABA se liga ao seu sítio ativo na presença do lorazepam, ocorre um aumento na frequência de abertura do canal de cloro (diferente dos barbitúricos, que aumentam a duração da abertura do canal). Esse influxo aumentado de íons cloreto carregados negativamente para o interior do neurônio pós-sináptico promove a hiperpolarização da membrana celular. Com o potencial de membrana mais negativo, o neurônio torna-se menos suscetível à despolarização e, consequentemente, menos propenso a disparar potenciais de ação.
Esse efeito depressor seletivo e controlado sobre a excitabilidade neuronal traduz-se clinicamente em quatro propriedades farmacológicas principais:
- Ansiolítica: Redução da hiperatividade no sistema límbico e na amígdala, atenuando as respostas de medo e ansiedade.
- Sedativa/Hipnótica: Modulação da formação reticular ascendente, facilitando a indução e manutenção do sono.
- Anticonvulsivante: Supressão da propagação da atividade elétrica epileptiforme no córtex cerebral.
- Miorrelaxante: Inibição de reflexos espinhais polissinápticos, promovendo o relaxamento da musculatura esquelética.
⚗️ Como Funciona no Organismo?
Farmacocinética e Farmacodinâmica
A compreensão do perfil farmacocinético do lorazepam é fundamental para a otimização de sua posologia e para a prevenção de efeitos adversos, especialmente em tratamentos prolongados ou em populações clinicamente vulneráveis.
Absorção
Após a administração por via oral, o lorazepam é rápida e quase completamente absorvido pelo trato gastrointestinal. Sua biodisponibilidade absoluta é de aproximadamente 90%, o que demonstra uma excelente absorção e um efeito de primeira passagem hepática mínimo. Os níveis plasmáticos máximos ($C_{max}$) são atingidos em um intervalo de 1,5 a 2,5 horas após a ingestão oral. Quando administrado por via intramuscular (IM), a absorção é igualmente rápida e completa, com o pico plasmático ocorrendo em cerca de 60 a 90 minutos. A via intravenosa (IV) proporciona um início de ação quase imediato (1 a 5 minutos), ideal para situações de emergência médica.
Distribuição
O lorazepam possui uma lipofilicidade moderada a alta, o que lhe permite atravessar rapidamente a barreira hematoencefálica e se distribuir amplamente pelos tecidos cerebrais e periféricos. O volume de distribuição aparente é de aproximadamente 1,3 L/kg. O fármaco apresenta uma taxa de ligação às proteínas plasmáticas de cerca de 85% a 91%, ligando-se predominantemente à albumina sérica. O lorazepam também atravessa livremente a barreira placentária e é excretado no leite materno, fatores que exigem extrema cautela em gestantes e lactantes.
Metabolismo
Este é o aspecto farmacocinético mais crucial do lorazepam. Ao contrário de benzodiazepínicos como o diazepam, clordiazepóxido e flurazepam, o lorazepam não sofre metabolismo oxidativo de fase I mediado pelas enzimas do citocromo P450 (CYP450) no fígado. Em vez disso, ele é metabolizado diretamente por reações de fase II através de glucuronidação direta catalisada pelas enzimas UDP-glucuronosiltransferases (UGT), principalmente a UGT2B7.
Esse processo de conjugação converte o lorazepam em um metabólito principal totalmente inativo, o 3-O-glucuronídeo de lorazepam (que representa cerca de 75% da dose administrada). Como não há produção de metabólitos ativos de longa duração, o perfil farmacocinético do lorazepam é significativamente menos afetado por interações medicamentosas que inibem ou induzem o CYP450, bem como pelo envelhecimento fisiológico ou por patologias hepáticas crônicas (como cirrose ou hepatite), nas quais a função oxidativa está severamente comprometida.
Excreção
A meia-vida de eliminação plasmática ($T_{1/2}$) do lorazepam é considerada intermediária, variando tipicamente entre 10 e 20 horas em adultos saudáveis. O metabólito inativo (glucuronídeo) e uma pequena fração do fármaco inalterado (menos de 1%) são excretados predominantemente por via renal (cerca de 88% da dose recuperada na urina). Uma quantidade menor (aproximadamente 7%) é eliminada através das fezes.
Indicações Terapêuticas
O lorazepam possui um amplo espectro de indicações clínicas aprovadas pela ANVISA e por agências reguladoras internacionais, como o FDA norte-americano. Suas principais aplicações terapêuticas incluem:
1. Controle de Distúrbios de Ansiedade
Indicado para o tratamento de curto prazo (geralmente de 2 a 4 semanas) de transtornos de ansiedade generalizada (TAG), crises de pânico e estados de ansiedade associados a sintomas depressivos ou estressores psicossociais agudos. Devido ao risco de dependência, o lorazepam não deve ser utilizado como monoterapia de longo prazo para a ansiedade crônica.
2. Tratamento da Insônia Associada à Ansiedade
Utilizado no manejo de curto prazo da insônia inicial ou de manutenção, particularmente quando a dificuldade para dormir está diretamente relacionada a um estado de hiperalerta, preocupação excessiva ou tensão emocional diurna.
3. Medicação Pré-Anestésica (Pré-medicação)
Administrado na noite anterior ou algumas horas antes de procedimentos cirúrgicos ou diagnósticos invasivos (como endoscopias ou cateterismos). Seus efeitos ansiolíticos e, sobretudo, sua capacidade de produzir amnésia anterógrada (impedindo que o paciente se recorde de eventos estressantes durante o procedimento) são altamente valorizados na prática anestésica.
4. Manejo da Síndrome de Abstinência Alcoólica
O lorazepam é um dos fármacos de escolha para o tratamento de sintomas de abstinência de álcool, incluindo tremores, agitação psicomotora, alucinações e prevenção de convulsões por privação alcoólica. Sua preferência sobre o diazepam nesta indicação deve-se à ausência de metabolismo oxidativo, o que confere maior segurança a pacientes com função hepática comprometida pelo alcoolismo crônico.
5. Controle do Status Epilepticus
Por via intravenosa, o lorazepam é considerado uma terapia de primeira linha para cessar crises convulsivas contínuas ou repetitivas (estado de mal epiléptico). Ele apresenta uma eficácia superior e uma duração de ação anticonvulsivante cerebral mais prolongada que o diazepam nesta situação de emergência de vida ou morte.
6. Usos Off-Label (Não descritos em bula)
Em contextos clínicos específicos, o lorazepam pode ser empregado no manejo da catatonia (uma síndrome neuropsiquiátrica caracterizada por mutismo e estupor), no controle de náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia oncológica (como terapia adjuvante para reduzir a ansiedade antecipatória) e no manejo de episódios de agitação psicótica aguda.
Posologia e Forma de Uso
A posologia do lorazepam deve ser estritamente individualizada pelo médico assistente, baseando-se na indicação clínica, na gravidade dos sintomas, na idade do paciente e na presença de comorbidades. A regra clínica fundamental para a prescrição de benzodiazepínicos é utilizar a menor dose eficaz pelo menor período de tempo possível.
Os comprimidos devem ser administrados por via oral, com o auxílio de água, independentemente das refeições. Em casos onde a administração oral é impossível ou em emergências médicas, utiliza-se a via parenteral (injetável).
Esquemas Posológicos Recomendados (Adultos)
- Ansiedade Geral: A dose diária usual varia de 2 mg a 3 mg por via oral, dividida em duas ou três administrações diárias (por exemplo, 1 mg pela manhã e 1 mg a 2 mg ao deitar). Dependendo da resposta clínica, a dose pode flutuar de 1 mg a 10 mg ao dia.
- Insônia Associada à Ansiedade: Dose única de 1 mg a 2 mg por via oral, administrada de 30 a 60 minutos antes de deitar.
- Pré-medicação Cirúrgica: 2 mg a 4 mg por via oral na noite anterior à cirurgia, ou 0,05 mg/kg (até um limite de 4 mg) por via intramuscular ou intravenosa de 1 a 2 horas antes do procedimento.
- Status Epilepticus (Uso Hospitalar): A dose inicial recomendada é de 4 mg por via intravenosa lenta (velocidade máxima de 2 mg/minuto). Se as crises persistirem após 10 a 15 minutos, a dose pode ser repetida uma vez.
Ajuste de Dose e Descontinuação
Para pacientes idosos, debilitados ou com insuficiência renal/hepática leve a moderada, a dose inicial deve ser reduzida pela metade (geralmente 0,5 mg a 1 mg por dia), com incrementos graduais se necessário e bem tolerados.
A interrupção do tratamento com lorazepam, especialmente após o uso contínuo por mais de duas semanas, nunca deve ser feita de forma abrupta. É imperativo realizar um protocolo de redução gradual da dose (desmame) para mitigar o risco de sintomas de abstinência e ansiedade de rebote.
Contraindicações
O uso do lorazepam é estritamente contraindicado em diversas condições clínicas devido ao risco elevado de exacerbação de sintomas respiratórios, neuromusculares ou de toxicidade sistêmica. As contraindicações absolutas e relativas incluem:
Contraindicações Absolutas
- Hipersensibilidade conhecida: Pacientes com histórico de reações alérgicas ao lorazepam, a outros benzodiazepínicos ou a qualquer componente da formulação (como lactose, presente em muitos comprimidos).
- Miastenia Gravis: Uma doença neuromuscular autoimune caracterizada por fraqueza muscular flutuante. Devido às suas propriedades miorrelaxantes, o lorazepam pode agravar severamente a fraqueza muscular, precipitando crises respiratórias graves.
- Insuficiência Respiratória Grave: O lorazepam pode atuar como um depressor do centro respiratório bulbar, podendo levar à hipóxia, hipercapnia e óbito em pacientes com reserva respiratória gravemente comprometida.
- Síndrome da Apneia do Sono: O relaxamento da musculatura da via aérea superior induzido pelo fármaco pode aumentar a frequência e a duração dos episódios de apneia obstrutiva durante o sono.
- Insuficiência Hepática Grave: Embora o lorazepam seja metabolizado por glucuronidação (que é preservada por mais tempo que a oxidação), quadros de insuficiência hepática terminal ou encefalopatia hepática ativa contraindicam seu uso pelo risco de precipitação ou agravamento do coma.
Contraindicações Relativas e Precauções
- Glaucoma de Ângulo Estreito Agudo: Deve ser evitado, embora possa ser utilizado com cautela em pacientes com glaucoma de ângulo aberto que estejam recebendo tratamento adequado.
- Histórico de Abuso de Substâncias: Pacientes com histórico de dependência de álcool, drogas ilícitas ou outros medicamentos apresentam um risco significativamente maior de desenvolver dependência ao lorazepam.
- Comprometimento Cognitivo e Demência: O uso pode exacerbar a confusão mental, desorientação e o risco de quedas em pacientes com doença de Alzheimer ou outras demências.
Efeitos Colaterais
Como todos os fármacos ativos no sistema nervoso central, o lorazepam pode provocar uma série de reações adversas. A maioria dos efeitos colaterais está diretamente relacionada à sua ação farmacodinâmica de depressão central (extensão do efeito terapêutico) e tende a se manifestar no início do tratamento, diminuindo de intensidade com a continuação do uso ou com o ajuste da dose.
Reações Muito Comuns (Ocorrem em mais de 10% dos pacientes)
A sonolência diurna e a fadiga são os efeitos mais frequentemente relatados. Os pacientes podem experimentar uma sensação de “ressaca” na manhã seguinte à administração noturna. O relaxamento muscular excessivo também é comum, manifestando-se como fraqueza muscular generalizada.
Reações Comuns (Ocorrem entre 1% e 10% dos pacientes)
- Ataxia e tontura: Dificuldade de coordenação motora e desequilíbrio, que elevam substancialmente o risco de quedas, particularmente na população idosa.
- Confusão mental: Lentificação do pensamento, dificuldade de concentração e desorientação espacial ou temporal.
- Amnésia Anterógrada: Dificuldade em reter novas informações na memória após a ingestão do medicamento. Embora útil como pré-medicação cirúrgica, é um efeito indesejável no uso cotidiano.
- Depressão: Desmascaramento ou agravamento de sintomas depressivos preexistentes.
Reações Incomuns e Raras (Ocorrem em menos de 1% dos pacientes)
- Reações Paradoxais: Caracterizadas por manifestações opostas ao efeito ansiolítico esperado, incluindo agitação psicomotora, agressividade, irritabilidade, fúria, pesadelos, alucinações e psicose. Estas reações são mais propensas a ocorrer em crianças, idosos e indivíduos com distúrbios psiquiátricos graves.
- Alterações Hematológicas: Raramente podem ocorrer discrasias sanguíneas, como trombocitopenia, agranulocitose ou pancitopenia.
- Reações de Hipersensibilidade: Reações cutâneas (rash, urticária), angioedema e, em casos extremamente raros, anafilaxia.
- Dependência e Abstinência: O desenvolvimento de dependência física pode ocorrer após poucas semanas de uso contínuo. A interrupção abrupta pode desencadear uma síndrome de abstinência grave, caracterizada por ansiedade extrema, insônia de rebote, tremores, sudorese, taquicardia, hiperacusia, despersonalização e, em casos graves, convulsões tônico-clônicas generalizadas.
Interações Medicamentosas
O lorazepam apresenta um potencial significativo de interações farmacodinâmicas, especialmente com outras substâncias que deprimem o sistema nervoso central. Devido ao seu metabolismo por glucuronidação, as interações farmacocinéticas mediadas pelas enzimas do citocromo P450 são mínimas, o que representa uma vantagem clínica importante.
Interações Farmacodinâmicas Graves
- Depressores do SNC (Álcool, Opioides, Barbitúricos): A coadministração de lorazepam com bebidas alcoólicas ou medicamentos depressores do SNC resulta em um efeito sinérgico aditivo altamente perigoso. Esta combinação pode provocar sedação profunda, depressão respiratória grave, coma e óbito. O uso concomitante com analgésicos opioides (como morfina, oxicodona, fentanil) deve ser evitado a menos que não haja alternativas terapêuticas, exigindo monitoramento clínico rigoroso e redução das doses de ambos os fármacos.
- Antipsicóticos, Antidepressivos Tricíclicos e Anti-histamínicos Sedativos: Podem potencializar os efeitos sedativos, hipotensores e miorrelaxantes do lorazepam.
Interações Farmacocinéticas Relevantes
- Ácido Valproico (Valproato de Sódio): Este anticonvulsivante inibe diretamente a enzima UDP-glucuronosiltransferase (UGT), responsável pela metabolização do lorazepam. A coadministração pode resultar em um aumento de até 40% a 50% nas concentrações plasmáticas de lorazepam, elevando substancialmente o risco de toxicidade e sedação excessiva. Recomenda-se reduzir a dose de lorazepam pela metade ao iniciar o tratamento concomitante com valproato.
- Probenecida: Utilizada no tratamento da gota, a probenecida também inibe a glucuronidação do lorazepam, prolongando sua meia-vida de eliminação e duplicando seus níveis séricos. A redução da dose de lorazepam é necessária nesta associação.
- Teofilina e Aminofilina: Estes broncodilatadores possuem propriedades antagonistas dos receptores de adenosina e podem reduzir ou reverter completamente os efeitos sedativos e ansiolíticos do lorazepam.
Uso em Populações Especiais
A prescrição de lorazepam requer cuidados redobrados e avaliações de risco-benefício extremamente minuciosas quando direcionada a subgrupos específicos de pacientes.
Idosos (Acima de 65 anos)
A população geriátrica é altamente sensível aos efeitos farmacodinâmicos dos benzodiazepínicos devido a alterações fisiológicas relacionadas ao envelhecimento, como a redução da reserva funcional cerebral e a diminuição da massa muscular. Nos idosos, o lorazepam aumenta significativamente o risco de comprometimento cognitivo agudo (quadros de delirium), ataxia, desequilíbrio e, consequentemente, quedas e fraturas ósseas graves (como fratura de colo de fêmur). Embora o metabolismo por glucuronidação do lorazepam seja preferível ao metabolismo oxidativo do diazepam nesta população, as doses devem ser sempre iniciadas no menor patamar possível (geralmente 0,5 mg) e o uso deve ser estritamente limitado ao curto prazo.
Gestantes
O lorazepam é classificado na Categoria D de Risco na Gravidez. Estudos epidemiológicos e relatos clínicos demonstram que o uso de benzodiazepínicos durante o primeiro trimestre de gestação pode estar associado a um risco aumentado de malformações congênitas, como fenda palatina e lábio leporino. A administração de lorazepam no final da gravidez (terceiro trimestre) ou durante o parto pode resultar na “síndrome do bebê flácido” (floppy infant syndrome), caracterizada por hipotonia muscular, hipotermia, dificuldades de sucção e depressão respiratória no recém-nascido. Além disso, recém-nascidos de mães que utilizaram benzodiazepínicos de forma crônica no final da gestação podem desenvolver sintomas de abstinência neonatal nas primeiras semanas de vida. O uso de lorazepam em gestantes deve ser evitado, reservando-se apenas para situações de extrema necessidade onde os benefícios superem claramente os riscos.
Lactantes
O lorazepam é excretado no leite materno em quantidades clinicamente significativas. Lactentes expostos ao fármaco através da amamentação podem apresentar sedação excessiva, letargia, dificuldade de sucção e perda de peso. Portanto, o uso de lorazepam não é recomendado em mulheres que estão amamentando. Caso o tratamento seja absolutamente indispensável, a amamentação deve ser descontinuada.
Pacientes com Insuficiência Renal ou Hepática
Em pacientes com insuficiência hepática leve a moderada, o lorazepam é considerado o benzodiazepínico de escolha devido ao seu metabolismo por conjugação direta, que permanece funcional mesmo com o comprometimento das enzimas oxidativas. No entanto, em quadros graves de cirrose ou insuficiência hepática terminal, o fármaco deve ser evitado devido ao risco de precipitação de encefalopatia hepática. Em pacientes com insuficiência renal crônica, a eliminação do metabólito inativo (glucuronídeo) pode estar gravemente retardada; embora o metabólito seja inativo, o acúmulo sistêmico prolongado exige cautela e monitoramento clínico contínuo.
Superdosagem
A superdosagem de lorazepam, quando ocorre de forma isolada (monointoxicação), raramente é fatal. No entanto, a gravidade aumenta exponencialmente quando o fármaco é ingerido em associação com outras substâncias depressoras do sistema nervoso central, como álcool, opioides, barbitúricos ou antidepressivos.
Sinais e Sintomas de Intoxicação
Os sintomas de superdosagem variam de acordo com a quantidade ingerida e a presença de coingestões, manifestando-se por uma progressão da depressão do SNC:
- Leves: Sonolência profunda, confusão mental, disartria (dificuldade de articulação da fala), letargia e ataxia moderada.
- Graves: Hipotonia muscular, arreflexia, hipotensão arterial, depressão respiratória significativa, bradicardia, coma e, em casos extremos, óbito por parada cardiorrespiratória.
Tratamento da Superdosagem
O manejo de uma suspeita de superdosagem de lorazepam deve ser realizado em ambiente hospitalar de urgência ou terapia intensiva, englobando medidas de suporte de vida e terapia específica:
- Estabilização Clínica: Manutenção das vias aéreas pérvias, oxigenoterapia e monitoramento contínuo dos sinais vitais (frequência cardíaca, pressão arterial e oximetria de pulso). A intubação endotraqueal e a ventilação mecânica devem ser instituídas imediatamente se houver depressão respiratória grave.
- Descontaminação Gastrointestinal: A lavagem gástrica pode ser considerada se realizada dentro de 1 a 2 horas após a ingestão de uma dose potencialmente letal. A administração de carvão ativado (1 g/kg) é útil para adsorver o fármaco remanescente no trato gastrointestinal, desde que o paciente apresente vias aéreas protegidas (consciente ou intubado).
- Antídoto Específico (Flumazenil): O flumazenil é um antagonista competitivo específico dos receptores benzodiazepínicos, capaz de reverter rapidamente os efeitos sedativos e a depressão respiratória causados pelo lorazepam. Atenção: O uso do flumazenil deve ser extremamente cauteloso. Ele é contraindicado em pacientes com histórico de epilepsia, usuários crônicos de benzodiazepínicos (risco de precipitação de estado de mal epiléptico por abstinência aguda) ou em casos de superdosagem mista envolvendo antidepressivos tricíclicos (risco elevado de convulsões graves).
☠️ Superdosagem (Overdose)
🚨 Em caso de superdosagem: ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro.
Medicamentos Genéricos e Similares
No mercado farmacêutico brasileiro, o medicamento de referência para o princípio ativo lorazepam é o Lorax®, desenvolvido e comercializado pelo laboratório Wyeth (atualmente sob a chancela da Pfizer). O Lorax® está consolidado há décadas na prática clínica nacional devido à sua consistência de fabricação e confiabilidade terapêutica.
Com a expiração da patente do medicamento de referência, a ANVISA aprovou o registro e a comercialização de diversos medicamentos genéricos e similares equivalentes (EQ) de lorazepam. Os medicamentos genéricos são comercializados sob a denominação comum brasileira (DCB) “Lorazepam” e são produzidos por grandes laboratórios nacionais e multinacionais, como Eurofarma, Medley, EMS, Teva, Germed, entre outros.
Para obter a aprovação da ANVISA, os medicamentos genéricos e similares de lorazepam devem passar por testes rigorosos de bioequivalência e equivalência farmacêutica em relação ao Lorax®. Esses estudos garantem que o medicamento alternativo apresenta a mesma taxa e extensão de absorção do princípio ativo na corrente sanguínea, assegurando que o paciente obtenha exatamente a mesma eficácia terapêutica e perfil de segurança, frequentemente a um custo significativamente mais acessível.
Comparativo com Medicamentos da Mesma Classe
Para uma escolha terapêutica racional, é fundamental comparar o lorazepam com outros benzodiazepínicos comumente prescritos na prática clínica, analisando suas propriedades cinéticas e indicações preferenciais.
O diazepam é um benzodiazepínico de ação prolongada (meia-vida de 20 a 100 horas) que sofre metabolismo oxidativo hepático intenso, gerando metabólitos ativos (como o desmetildiazepam) que se acumulam no organismo. Essa característica torna o diazepam inadequado para idosos ou hepatopatas, nos quais o lorazepam é amplamente preferido devido à sua metabolização direta por glucuronidação e meia-vida intermediária (10 a 20 horas).
O alprazolam possui uma meia-vida semelhante à do lorazepam, mas apresenta uma potência ansiolítica extremamente elevada e um início de ação muito rápido. O alprazolam é o fármaco de escolha para o tratamento agudo do transtorno de pânico. No entanto, sua rápida depuração e alta potência estão associadas a um risco significativamente maior de ansiedade interdose e sintomas de abstinência mais intensos em comparação ao lorazepam.
O clonazepam é um benzodiazepínico de alta potência e longa ação (meia-vida de 30 a 40 horas). É amplamente utilizado para o controle de distúrbios de ansiedade crônicos e como anticonvulsivante. Em comparação ao lorazepam, o clonazepam permanece ativo no organismo por muito mais tempo, o que pode resultar em maior sedação residual diurna e maior risco de acúmulo em tratamentos de longo prazo.
Registro na ANVISA
O lorazepam é regulamentado no Brasil de forma estrita pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), órgão vinculado ao Ministério da Saúde. Devido ao seu potencial de causar dependência física e psíquica, a substância está incluída na Lista B1 (Substâncias Psicotrópicas) da Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998.
Essa classificação impõe regras rígidas para a prescrição, dispensação e controle do medicamento:
- Notificação de Receita B (Receita Azul): A dispensação do lorazepam em farmácias comerciais só é permitida mediante a apresentação e retenção da receita azul. Esta receita tem validade de 30 dias a partir da data de emissão e é limitada a uma quantidade de medicamento suficiente para, no máximo, 60 dias de tratamento (ou até 3 ampolas no caso da formulação injetável).
- SNGPC: Todas as movimentações de estoque (entrada, saída e perda) de lorazepam nas farmácias e drogarias privadas devem ser obrigatoriamente registradas no Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) da ANVISA, garantindo a rastreabilidade total do fármaco desde a fabricação até o consumidor final.
Perguntas Frequentes sobre Lorazepam
Onde Comprar Lorazepam?
O lorazepam, seja sob a marca de referência Lorax® ou em suas versões genéricas e similares, está amplamente disponível para compra em praticamente todas as redes de farmácias e drogarias físicas e online do Brasil. No entanto, devido às exigências legais estabelecidas pela ANVISA para medicamentos da Lista B1 (Portaria 344/98), a aquisição deste fármaco está sujeita a regras estritas que visam coibir o uso indiscriminado e a automedicação.
A compra só pode ser efetuada presencialmente em estabelecimentos farmacêuticos autorizados, mediante a entrega física da Notificação de Receita B (receita azul) devidamente preenchida, assinada e carimbada por um médico devidamente registrado no Conselho Regional de Medicina (CRM). Não é permitida a venda de lorazepam por canais de e-commerce com entrega em domicílio sem que haja a validação prévia e a retenção física da receita azul pelo farmacêutico responsável no ato da entrega.
O preço médio do lorazepam varia de acordo com a dosagem (1 mg ou 2 mg), a quantidade de comprimidos na embalagem (geralmente cartuchos com 20 ou 30 comprimidos), o laboratório fabricante (medicamentos genéricos costumam ser de 30% a 60% mais baratos que o de referência) e a região do país. Recomenda-se que o paciente realize uma pesquisa de preços em diferentes redes farmacêuticas e opte sempre por estabelecimentos idôneos, garantindo a procedência, o armazenamento adequado e a legitimidade do medicamento adquirido.
Onde comprar Lorazepam
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Fonte e revisão
Conteúdo baseado no Bulário Eletrônico da ANVISA, disponível em consultas.anvisa.gov.br. Publicado em 08/09/2026 e revisado em 08/09/2026. Encontrou alguma divergência? Avise a gente.
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