Conteúdo informativo. Não substitui consulta médica.

Bularium bulas em português claro
Ansiolíticos e Antidepressivos

Haloperidol

24 min de leitura Atualizado em 07/09/2026 Base ANVISA

Antes de continuar. Esta página reúne informações da bula em linguagem simples. Não substitui a orientação do seu médico ou farmacêutico, e não serve para iniciar, alterar ou interromper tratamento por conta própria.

O Haloperidol é um dos marcos mais importantes da história da psicofarmacologia moderna. Introduzido no final da década de 1950, este medicamento revolucionou o tratamento das psicoses e permitiu a desinstitucionalização de milhares de pacientes psiquiátricos ao redor do mundo. Classificado como um antipsicótico de primeira geração (ou antipsicótico típico) pertencente à classe química das butirofenonas, o Haloperidol continua sendo, mesmo após mais de seis décadas de uso clínico, uma das ferramentas mais eficazes, amplamente estudadas e prescritas no manejo de episódios psicóticos agudos, esquizofrenia crônica, estados de agitação psicomotora e diversas outras condições neuropsiquiátricas.

A relevância do Haloperidol reside na sua alta potência farmacológica. Diferente dos antipsicóticos atípicos de introdução mais recente, o Haloperidol possui uma ação altamente seletiva sobre os receptores dopaminérgicos do sistema nervoso central. Essa característica confere ao fármaco uma eficácia robusta no controle de sintomas psicóticos positivos, como alucinações e delírios, embora exija do profissional de saúde um manejo clínico minucioso devido ao seu perfil característico de efeitos colaterais neurológicos. Neste artigo técnico e aprofundado, exploraremos detalhadamente a farmacologia, as indicações clínicas, os perfis de segurança e as diretrizes de uso do Haloperidol, servindo como um guia definitivo para profissionais de saúde e pacientes.

O que é Haloperidol?

O Haloperidol é um fármaco antipsicótico de primeira geração (típico) de alta potência, pertencente ao grupo das butirofenonas. Descoberto em 1958 pelo laboratório Janssen Pharmaceutica, sob a liderança do farmacologista Paul Janssen, o medicamento foi desenvolvido a partir de pesquisas com análogos da petidina, buscando-se compostos com propriedades analgésicas e neurolépticas. Sua aprovação pela agência regulatória norte-americana (FDA) ocorreu em 1967, e logo em seguida o medicamento foi introduzido e aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) no Brasil.

No mercado brasileiro, o Haloperidol está disponível em diferentes apresentações farmacêuticas para atender às necessidades de tratamentos agudos e de manutenção. As formas farmacêuticas mais comuns incluem:

  • Comprimidos: nas concentrações de 1 mg, 5 mg e 10 mg, indicados para o tratamento de manutenção por via oral.
  • Solução oral (gotas): na concentração de 2 mg/mL, permitindo um ajuste posológico extremamente refinado, ideal para pacientes idosos, pediátricos ou com dificuldades de deglutição.
  • Solução injetável (de ação rápida): ampolas de 5 mg/mL (geralmente por via intramuscular), amplamente utilizadas em ambientes de urgência e emergência para o controle de agitação psicomotora aguda.
  • Solução injetável de depósito (Decanoato de Haloperidol): ampolas de 50 mg/mL (ou 70,52 mg de decanoato de haloperidol, equivalente a 50 mg de haloperidol base) para administração intramuscular profunda a cada 3 ou 4 semanas, indicada para pacientes com esquizofrenia que apresentam baixa adesão ao tratamento oral.

Mecanismo de Ação

O Haloperidol exerce sua ação terapêutica primária através do bloqueio potente e altamente seletivo dos receptores dopaminérgicos do tipo 2 (D2) no sistema nervoso central. A dopamina é um neurotransmissor fundamental na regulação do humor, do comportamento, da cognição e da coordenação motora. A hipótese dopaminérgica da esquizofrenia postula que a hiperatividade da via dopaminérgica mesolímbica é responsável pela gênese dos sintomas psicóticos positivos (alucinações, delírios, pensamento desorganizado).

Ao antagonizar os receptores D2 pós-sinápticos na via mesolímbica, o Haloperidol reduz drasticamente a transmissão dopaminérgica hiperativa, resultando na remissão rápida e eficaz dos sintomas psicóticos. No entanto, a ação do Haloperidol não é restrita a essa via, o que explica tanto seus efeitos terapêuticos adicionais quanto seus principais efeitos adversos através do bloqueio dopaminérgico em outras três vias cerebrais distintas:

  • Via Mesocortical: O bloqueio de receptores D2 nesta via (onde já existe um déficit dopaminérgico basal na esquizofrenia) pode agravar ou não melhorar significativamente os chamados sintomas negativos (apatia, isolamento social, embotamento afetivo) e déficits cognitivos.
  • Via Nigroestriatal: Esta via controla a coordenação e o planejamento motor. O bloqueio intenso dos receptores D2 nesta região pelo Haloperidol é o responsável direto pelo surgimento dos sintomas extrapiramidais (como parkinsonismo medicamentoso, distonia aguda e acatisia).
  • Via Tuberoinfundibular: A dopamina atua fisiologicamente como um fator inibidor da liberação de prolactina pela glândula hipófise anterior. Ao bloquear os receptores D2 nesta via, o Haloperidol anula essa inibição, levando à hiperprolactinemia, que clinicamente se manifesta como ginecomastia, galactorreia, disfunção erétil e irregularidades menstruais.

Adicionalmente, o Haloperidol apresenta afinidade moderada a baixa por outros sistemas de receptores. Possui uma fraca atividade alfa-1 adrenérgica (o que pode causar hipotensão ortostática leve), afinidade insignificante por receptores histaminérgicos H1 (explicando seu baixo efeito sedativo comparado a antipsicóticos de baixa potência como a clorpromazina) e praticamente nenhuma afinidade por receptores muscarínicos colinérgicos, o que reduz a incidência de efeitos colaterais anticolinérgicos clássicos (como boca seca, retenção urinária e constipação).

⚗️ Como Funciona no Organismo?

Farmacocinética e Farmacodinâmica

A farmacocinética do Haloperidol varia consideravelmente de acordo com a via de administração utilizada (oral, intramuscular de ação rápida ou intramuscular de depósito/decanoato). Compreender estas variáveis é crucial para o ajuste terapêutico seguro e eficaz.

Absorção e Biodisponibilidade

Após a administração por via oral (comprimidos ou gotas), o Haloperidol é bem absorvido pelo trato gastrointestinal. No entanto, devido ao efeito de primeira passagem hepática, sua biodisponibilidade sistêmica varia entre 60% e 70%. O pico de concentração plasmática ($C_{max}$) é atingido entre 2 a 6 horas após a ingestão oral. Quando administrado por via intramuscular (lactato de haloperidol – ação rápida), a absorção é rápida e completa, com biodisponibilidade próxima a 100%, e o pico plasmático é alcançado em cerca de 10 a 20 minutos, tornando essa via ideal para o manejo de emergências psiquiátricas.

No caso do Decanoato de Haloperidol (formulação depot), o fármaco é esterificado com um ácido graxo de cadeia longa (ácido decanoico) e dissolvido em óleo de gergelim. Após a injeção intramuscular profunda, o complexo é lentamente liberado do tecido muscular e hidrolisado por esterases plasmáticas e teciduais, liberando o haloperidol ativo de forma contínua na circulação. O pico plasmático do decanoato ocorre cerca de 3 a 9 dias após a aplicação, e o estado de equilíbrio (steady-state) é alcançado após a terceira ou quarta dose mensal.

Distribuição e Ligação Proteica

O Haloperidol é uma molécula altamente lipofílica, o que facilita sua rápida passagem através da barreira hematoencefálica e sua ampla distribuição pelos tecidos corporais. O volume de distribuição no estado de equilíbrio ($V_d$) é elevado, variando de 8 a 18 L/kg. O fármaco apresenta uma alta taxa de ligação às proteínas plasmáticas (aproximadamente 90% a 92%), ligando-se principalmente à glicoproteína ácida alfa-1 e, em menor grau, à albumina.

Metabolismo

O metabolismo do Haloperidol ocorre predominantemente no fígado e envolve três vias metabólicas principais:

  • Glucuronidação: Via metabólica principal (cerca de 50% a 60% do metabolismo), gerando o metabólito inativo haloperidol-glucuronídeo.
  • Redução carbonílica: Conversão reversível de haloperidol a haloperidol reduzido (metabólito com atividade farmacológica significativamente menor ou nula) através da enzima carbonil redutase citosólica.
  • Oxidação por Citocromos (CYP450): O Haloperidol é substrato das isoenzimas CYP3A4 e CYP2D6. A oxidação gera metabólitos inativos (como o ácido piridínico e metabólitos desfluorados). Alterações na atividade dessas enzimas por polimorfismos genéticos ou interações medicamentosas podem alterar drasticamente os níveis séricos do fármaco.

Excreção

A meia-vida de eliminação plasmática ($t_{1/2}$) do Haloperidol oral varia de 15 a 30 horas (média de 20 horas). Para o Decanoato de Haloperidol, a taxa de depuração é extremamente lenta devido à liberação controlada do depósito muscular, resultando em uma meia-vida de eliminação aparente de aproximadamente 3 semanas (21 dias). A eliminação do Haloperidol e de seus metabólitos ocorre de forma mista: cerca de 40% é excretado por via renal (urina) e aproximadamente 60% por via biliar/fecal.

Indicações Terapêuticas

O Haloperidol possui um amplo espectro de indicações terapêuticas aprovadas pela ANVISA e por agências internacionais, abrangendo tanto a psiquiatria quanto outras especialidades médicas como a neurologia e os cuidados paliativos.

Indicações Psiquiátricas

  • Esquizofrenia: Tratamento agudo de surtos psicóticos e terapia de manutenção a longo prazo para prevenção de recaídas em pacientes com esquizofrenia crônica.
  • Transtorno Bipolar (Fase de Mania): Controle rápido de episódios de mania aguda moderada a grave com ou sem sintomas psicóticos, caracterizados por exaltação do humor, logorreia, agitação e agressividade.
  • Agitação Psicomotora Aguda: Manejo de estados de agitação grave, agressividade e comportamento violento associados a psicoses agudas, esquizofrenia, mania ou transtornos de personalidade.
  • Transtornos de Conduta na Infância: Indicado em casos graves de agressividade e hiperatividade psicomotora em crianças que não responderam a terapias não farmacológicas ou a outros psicofármacos.

Indicações Neurológicas e Gerais

  • Síndrome de Tourette e Tiques Motores/Vocais: Controle de tiques graves e vocalizações involuntárias (coprolalia) em pacientes pediátricos e adultos que apresentam prejuízo funcional significativo e refratariedade a outras abordagens.
  • Coreia de Huntington: Alívio sintomático dos movimentos coreicos (involuntários e desordenados) característicos desta doença neurodegenerativa hereditária.
  • Soluços Intratáveis: Tratamento de soluços persistentes e refratários a outras intervenções clínicas (geralmente por curto período).
  • Náuseas e Vômitos Refratários: Utilizado em cuidados paliativos ou pós-operatórios imediatos quando outras terapias antieméticas falharam.

Uso Off-Label Relevante

Na prática clínica baseada em evidências, o Haloperidol é frequentemente utilizado de forma off-label (não descrita em bula) para o tratamento do Delirium (estado confusional agudo) em pacientes hospitalizados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) ou enfermarias gerais. Embora diretrizes recentes recomendem cautela e priorizem medidas não farmacológicas, baixas doses de Haloperidol endovenoso ou intramuscular continuam sendo prescritas para conter a agitação severa que coloca em risco a integridade física do paciente ou a manutenção de dispositivos invasivos (como tubos endotraqueais e cateteres).

Posologia e Forma de Uso

A posologia do Haloperidol deve ser estritamente individualizada pelo médico assistente, baseando-se na gravidade do quadro clínico, idade do paciente, comorbidades associadas e resposta terapêutica individual. A regra geral da farmacogeriatria e da psiquiatria clínica aplica-se perfeitamente ao Haloperidol: “start low and go slow” (começar com doses baixas e aumentar gradualmente).

Diretrizes Gerais de Dosagem

Para o tratamento por via oral em adultos com quadros psicóticos moderados, a dose inicial costuma variar de 1,5 mg a 5,0 mg ao dia, dividida em duas ou três tomadas. Em casos graves ou refratários, a dose diária pode ser titulada até 15 mg ou 20 mg. Doses superiores a 20 mg/dia raramente oferecem eficácia terapêutica adicional e aumentam substancialmente o risco de toxicidade neurológica e cardiovascular.

No manejo da agitação psicomotora aguda em ambiente de urgência, a administração intramuscular de ação rápida (lactato de haloperidol) é realizada na dose de 2,5 mg a 5,0 mg. Esta dose pode ser repetida a cada 4 a 8 horas, se necessário, respeitando-se o limite máximo recomendado de 15 mg a 20 mg nas 24 horas. Assim que o controle comportamental for obtido, deve-se realizar a transição para a via oral.

Para o Decanoato de Haloperidol (depot), a dose inicial é calculada com base na dose oral diária estável que o paciente vinha recebendo. Geralmente, a dose mensal de decanoato equivale a 10 a 15 vezes a dose diária de haloperidol oral. A dose padrão de manutenção varia de 50 mg a 200 mg por via intramuscular profunda (exclusivamente na região glútea) a cada 4 semanas.

Contraindicações

O uso do Haloperidol é contraindicado em diversas situações clínicas onde o bloqueio dopaminérgico ou os efeitos colaterais sistêmicos do fármaco possam agravar condições subjacentes ou colocar a vida do paciente em risco.

Contraindicações Absolutas

  • Hipersensibilidade conhecida: Pacientes com histórico de reações alérgicas ao Haloperidol ou a qualquer componente da formulação (como o óleo de gergelim no caso do decanoato).
  • Doença de Parkinson: O Haloperidol agrava severamente os sintomas motores da doença (rigidez, tremor de repouso, bradicinesia) devido ao bloqueio dopaminérgico estriatal profundo.
  • Demência com Corpos de Lewy: Pacientes com esta patologia apresentam extrema sensibilidade a neurolépticos, podendo desenvolver reações extrapiramidais graves, rigidez catatônica irreversível ou declínio cognitivo abrupto.
  • Estados de Depressão Severa do Sistema Nervoso Central (SNC): Quadros comatosos de qualquer etiologia ou depressão profunda do SNC induzida por álcool, anestésicos, barbitúricos ou opioides.
  • Prolongamento do Intervalo QT Conhecido: Pacientes com síndrome do QT longo congênita ou adquirida, ou histórico de arritmias ventriculares graves (como Torsades de Pointes).
  • Infarto Agudo do Miocárdio Recente: Ou quadros de insuficiência cardíaca descompensada.

Contraindicações Relativas e Precauções

  • Epilepsia e Histórico de Convulsões: O Haloperidol reduz o limiar convulsivo, exigindo monitoramento rigoroso e ajuste de anticonvulsivantes.
  • Disrupturas Eletrolíticas: Hipocalemia ou hipomagnesemia não corrigidas aumentam drasticamente o risco de arritmias induzidas pelo prolongamento do intervalo QT.
  • Hipertireoidismo: A toxicidade neurológica (incluindo reações extrapiramidais graves) pode estar aumentada em pacientes com excesso de hormônios tireoidianos circulantes.
  • Glaucoma de Ângulo Estreito e Hipertrofia Prostática: Embora tenha baixa atividade anticolinérgica, deve ser usado com cautela nestas populações.

Efeitos Colaterais

Os efeitos colaterais do Haloperidol são, em sua grande maioria, extensões previsíveis de sua ação farmacológica (bloqueio dopaminérgico). Eles representam um dos maiores desafios na adesão ao tratamento a longo prazo.

Sintomas Extrapiramidais (SEP)

Os SEPs são os efeitos adversos mais comuns e clinicamente significativos do Haloperidol. Eles dividem-se em quatro manifestações principais:

  1. Distonia Aguda: Ocorre nas primeiras horas ou dias de tratamento. Caracteriza-se por contrações musculares espásticas, dolorosas e involuntárias, afetando principalmente os músculos do pescoço (torcicolo), mandíbula (trismo), língua e olhos (crise oculógira). É mais comum em homens jovens e é tratada com anticolinérgicos injetáveis (como o biperideno).
  2. Acatisia: Uma sensação subjetiva de inquietação motora interna incontrolável. O paciente sente a necessidade imperiosa de se movimentar constantemente (andar de um lado para o outro, balançar as pernas). Pode ser confundida com piora da agitação psicótica, levando erroneamente ao aumento da dose. Trata-se com redução da dose, betabloqueadores (propranolol) ou benzodiazepínicos.
  3. Parkinsonismo Medicamentoso: Manifesta-se após semanas de uso. Apresenta a tríade clássica: tremor de repouso, rigidez muscular em “roda denteada” e bradicinesia (lentidão de movimentos), além de fácies em máscara e marcha arrastada.
  4. Discinesia Tardia: Uma complicação grave de longo prazo (meses ou anos de uso contínuo). Caracteriza-se por movimentos involuntários, repetitivos e coreiformes da face, boca, língua (caretas, movimentos de sucção e mastigação) e, às vezes, extremidades. Pode ser irreversível se não detectada precocemente. O manejo envolve a descontinuação gradual do Haloperidol e substituição por antipsicóticos atípicos de baixo risco (como a clozapina).

Síndrome Neuroléptica Maligna (SNM)

A SNM é uma reação idiossincrática rara, porém potencialmente fatal, associada ao uso de qualquer antipsicótico, com maior incidência nos agentes de alta potência como o Haloperidol. Caracteriza-se por:

  • Hipertermia grave (febre alta inexplicável).
  • Rigidez muscular extrema (“em cano de chumbo”).
  • Instabilidade autonômica (taquicardia, flutuações da pressão arterial, sudorese profusa, arritmias).
  • Alteração do estado mental (confusão, estupor, coma).
  • Elevação acentuada da Creatina Fosfoquinase (CPK) sérica e leucocitose.

O tratamento exige a interrupção imediata do Haloperidol, suporte intensivo em UTI, resfriamento corporal, correção hidroeletrolítica e uso de medicamentos específicos como o dantrolene (relaxante muscular) e bromocriptina (agonista dopaminérgico).

Efeitos Cardiovasculares

O Haloperidol pode bloquear os canais de potássio cardíacos hERG, prolongando a repolarização ventricular. Isso se traduz no eletrocardiograma (ECG) como um prolongamento do intervalo QTc. Se o QTc exceder 500 ms, há um risco aumentado de desenvolvimento de arritmias ventriculares potencialmente letais, como o Torsades de Pointes, que pode evoluir para fibrilação ventricular e morte súbita. Esse risco é significativamente maior com o uso de doses elevadas, administração por via intravenosa, presença de cardiopatia estrutural prévia ou uso concomitante de outros fármacos que prolongam o intervalo QT.

Interações Medicamentosas

O Haloperidol apresenta um potencial significativo de interações farmacológicas que podem comprometer sua eficácia ou aumentar drasticamente o risco de toxicidade.

Interações Farmacodinâmicas

  • Fármacos que Prolongam o Intervalo QT: A coadministração com antiarrítmicos (como amiodarone, sotalol), certos antibióticos (como eritromicina, claritromicina, moxifloxacino), antimaláricos, ou outros antipsicóticos está estritamente contraindicada ou requer extrema cautela devido ao risco sinérgico de arritmias ventriculares graves.
  • Depressores do Sistema Nervoso Central: O Haloperidol potencializa o efeito sedativo e depressor respiratório do álcool, ansiolíticos (benzodiazepínicos), anestésicos gerais, hipnóticos e analgésicos opioides.
  • Agonistas Dopaminérgicos e Levodopa: O Haloperidol antagoniza diretamente os efeitos terapêuticos da levodopa e de agonistas dopaminérgicos (como pramipexol e rotigotina) utilizados no tratamento da Doença de Parkinson, anulando seus benefícios e agravando o parkinsonismo.
  • Anti-hipertensivos: Pode ocorrer hipotensão ortostática aditiva quando associado a bloqueadores alfa-adrenérgicos ou outros vasodilatadores.

Interações Farmacocinéticas

  • Inibidores Enzimáticos (Aumento dos níveis de Haloperidol): Fármacos que inibem as enzimas CYP3A4 ou CYP2D6 reduzem o clearance do Haloperidol, elevando sua concentração plasmática e o risco de efeitos colaterais (incluindo prolongamento do QT e SEPs). Exemplos incluem: fluoxetina, paroxetina, quinidina, itraconazol, cetoconazol, ritonavir e suco de toranja (grapefruit).
  • Indutores Enzimáticos (Redução dos níveis de Haloperidol): Fármacos que induzem o metabolismo hepático aceleram a eliminação do Haloperidol, reduzindo sua eficácia terapêutica. Exemplos incluem: carbamazepina, fenitoína, fenobarbital, rifampicina e a Erva-de-São-João (Hypericum perforatum).

Uso em Populações Especiais

A prescrição de Haloperidol para grupos específicos de pacientes requer considerações farmacológicas e clínicas individualizadas para mitigar riscos adicionais.

Gestantes e Lactantes

O Haloperidol é classificado na Categoria C de risco na gravidez. Estudos em animais demonstraram toxicidade reprodutiva em doses elevadas. Em humanos, não há estudos controlados e adequados. Relatos de casos sugerem que recém-nascidos expostos a antipsicóticos típicos no terceiro trimestre de gestação correm o risco de apresentar sintomas extrapiramidais e/ou de abstinência após o parto (como agitação, hipertonia, hipotonia, tremor, sonolência e distúrbios alimentares). O uso durante a gestação deve ser reservado para situações onde os benefícios maternos superem claramente os riscos potenciais ao feto.

O Haloperidol é excretado no leite materno em pequenas quantidades. Foram relatados casos isolados de sintomas extrapiramidais leves em lactentes cujas mães utilizavam o fármaco. Portanto, a amamentação geralmente não é recomendada durante o tratamento com Haloperidol, ou deve ser acompanhada de monitoramento pediátrico rigoroso do lactente.

Idosos

A população idosa é extremamente sensível aos efeitos adversos do Haloperidol, particularmente aos sintomas extrapiramidais e à hipotensão ortostática. Além disso, idosos apresentam maior risco de prolongamento do intervalo QT e arritmias. O clearance renal e o metabolismo hepático reduzidos nesta faixa etária exigem que as doses iniciais sejam substancialmente menores (geralmente de 25% a 50% da dose padrão do adulto) e tituladas lentamente.

Alerta Importante (Black Box Warning): Estudos clínicos demonstraram que pacientes idosos com psicose associada à demência tratados com medicamentos antipsicóticos apresentam um aumento do risco de morte (principalmente por causas cardiovasculares ou infecciosas, como pneumonia) em comparação com o placebo. O Haloperidol não é aprovado para o tratamento de psicose relacionada à demência sem sintomas refratários de agressividade extrema que ofereçam perigo iminente.

Crianças

O uso em crianças e adolescentes deve ser feito sob supervisão de psiquiatra infantil. O Haloperidol é indicado para o controle de transtornos de conduta graves e refratários e na Síndrome de Tourette. Os parâmetros de segurança e eficácia em crianças menores de 3 anos não foram estabelecidos. O monitoramento de efeitos extrapiramidais e de alterações cognitivas/comportamentais deve ser contínuo.

Insuficiência Hepática e Renal

Como o Haloperidol é extensamente metabolizado pelo fígado, pacientes com insuficiência hepática moderada a grave apresentam risco acumulado de níveis plasmáticos elevados do fármaco. Ajustes de dose e monitoramento frequente das enzimas hepáticas são recomendados. Na insuficiência renal, embora apenas uma fração menor do fármaco inalterado seja excretada pelos rins, recomenda-se cautela, iniciando o tratamento com doses mais baixas.

Superdosagem

A superdosagem por Haloperidol manifesta-se clinicamente como uma exacerbação grave de seus efeitos farmacológicos conhecidos e toxicidade sistêmica.

Sintomas de Intoxicação

  • Reações extrapiramidais graves (rigidez muscular generalizada, tremores grosseiros, espasmos musculares dolorosos).
  • Sedação profunda, torpor, evoluindo para coma em casos graves.
  • Hipotensão arterial severa ou choque circulatório.
  • Instabilidade autonômica (hipertermia ou hipotermia).
  • Alterações eletrocardiográficas significativas (prolongamento acentuado do intervalo QTc, arritmias ventriculares como Torsades de Pointes, parada cardíaca).
  • Depressão respiratória.
  • Convulsões.

Tratamento da Superdosagem

Não existe um antídoto específico para o Haloperidol. O tratamento é essencialmente de suporte e sintomático:

  1. Medidas de Descontaminação: Lavagem gástrica ou administração de carvão ativado podem ser consideradas se a ingestão tiver ocorrido poucas horas antes do atendimento (recomenda-se precaução devido ao risco de aspiração pulmonar em pacientes com rebaixamento do nível de consciência).
  2. Suporte Ventilatório e Cardiovascular: Manutenção das vias aéreas pérvias, ventilação mecânica se necessário. Monitoramento eletrocardiográfico contínuo (ECG) é mandatório para detectar arritmias precocemente.
  3. Manejo da Hipotensão: Administração de fluidos intravenosos (expansores plasmáticos). Se vasopressores forem necessários, deve-se priorizar a noradrenalina. A adrenalina (epinefrina) deve ser evitada, pois o bloqueio alfa-adrenérgico induzido pelo Haloperidol pode fazer com que a adrenalina cause uma queda ainda maior na pressão arterial (efeito paradoxal).
  4. Controle de Sintomas Extrapiramidais: Administração de agentes anticolinérgicos de ação central por via parenteral (como o biperideno injetável).

A diálise ou hemoperfusão não são eficazes para remover o Haloperidol da circulação devido ao seu grande volume de distribuição e alta ligação proteica.

☠️ Superdosagem (Overdose)

🚨 Em caso de superdosagem: ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro.

Medicamentos Genéricos e Similares

O Haloperidol é uma molécula de baixo custo e amplamente acessível, estando incluído na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. No mercado nacional, o medicamento de referência original é o Haldol (comprimidos, gotas e injetável de ação rápida) e o Haldol Decanoato (injetável de depósito), ambos desenvolvidos historicamente pela Janssen-Cilag.

Devido à expiração de patentes há muitas décadas, existem inúmeras alternativas de medicamentos genéricos bioequivalentes produzidos por laboratórios farmacêuticos confiáveis estabelecidos no Brasil, tais como Teva, União Química, Cristália, Hipolabor, Prati-Donaduzzi, Geolab, entre outros. Há também medicamentos similares equivalentes registrados sob diferentes nomes comerciais (como o Uni Haloper por exemplo). Todos os genéricos e similares autorizados pela ANVISA passam por testes rigorosos de bioequivalência farmacêutica para garantir que entreguem exatamente a mesma eficácia e segurança do medicamento de referência.

Comparativo com Medicamentos da Mesma Classe

Para contextualizar a posição clínica do Haloperidol, é útil compará-lo com outros antipsicóticos de primeira geração (típicos) que também atuam predominantemente via antagonismo dos receptores D2, mas que apresentam potências e perfis de efeitos colaterais distintos.

Os antipsicóticos típicos são historicamente divididos em agentes de alta e baixa potência:

  • Alta Potência (ex: Haloperidol, Flufenazina): Apresentam alta afinidade pelos receptores D2. Requerem doses clínicas baixas (em miligramas). Possuem baixo efeito sedativo, baixa atividade anticolinérgica e hipotensora, mas apresentam uma incidência muito elevada de sintomas extrapiramidais (SEPs).
  • Baixa Potência (ex: Clorpromazina, Levomepromazina): Apresentam menor afinidade pelos receptores D2, necessitando de doses clínicas maiores (em centenas de miligramas). Possuem alta afinidade por receptores H1 (causando forte sedação), receptores alfa-1 (causando hipotensão ortostática significativa) e receptores muscarínicos (causando fortes efeitos anticolinérgicos como boca seca e constipação), porém apresentam menor risco de indução de SEPs em comparação com os de alta potência.

Registro na ANVISA

O Haloperidol é uma substância estritamente controlada no território brasileiro. Seu registro na ANVISA segue as diretrizes da Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998, que regulamenta as substâncias e medicamentos sujeitos a controle especial.

O Haloperidol está classificado na Lista C1 (Lista das substâncias sujeitas a controle especial). Consequentemente, sua dispensação nas farmácias e drogarias comerciais exige obrigatoriamente a apresentação da Receita de Controle Especial, emitida em 2 (duas) vias. A primeira via fica retida no estabelecimento farmacêutico para escrituração e fiscalização sanitária, enquanto a segunda via é devolvida carimbada ao paciente como comprovante de orientação de uso. O período máximo de tratamento prescrito em cada receita é limitado a 60 dias para formas orais e a quantidade necessária para administração conforme indicação médica para injetáveis.

ANVISA — Agência Nacional de Vigilância Sanitária

🔗 Consultar no Bulário Eletrônico da ANVISA

Perguntas Frequentes sobre Haloperidol

Onde Comprar Haloperidol?

O Haloperidol pode ser adquirido em praticamente qualquer farmácia ou drogaria comercial de médio e grande porte no Brasil, tanto na sua forma de referência (Haldol) quanto nas versões genéricas ou similares. Por ser um medicamento de baixo custo de produção, os preços do Haloperidol oral (comprimidos ou gotas) costumam ser bastante acessíveis, variando geralmente entre R$ 5,00 e R$ 30,00, dependendo da dosagem e do laboratório fabricante. A apresentação de depósito (Decanoato de Haloperidol) possui um valor ligeiramente superior, mas ainda assim moderado.

Adicionalmente, por constar na lista de medicamentos essenciais do SUS, o Haloperidol (comprimidos, gotas e decanoato injetável) é distribuído gratuitamente através das farmácias das Unidades Básicas de Saúde (Postos de Saúde) e de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em todo o país. Para a retirada gratuita no SUS ou a compra na rede privada, é indispensável a apresentação da Receita de Controle Especial em duas vias, devidamente preenchida, assinada e carimbada pelo médico prescritor, dentro do prazo de validade de 30 dias a contar da data de emissão.

Onde comprar Haloperidol

Disponível em farmácias físicas e online.

Pergunte ao farmacêutico pelo genérico: o princípio ativo é o mesmo e a economia costuma passar de 50%. Verifique antes se a apresentação que você precisa exige receita.

Recomendação

Não erre mais o horário do seu remédio

Quem toma mais de um medicamento por dia acaba repetindo ou pulando dose. Um porta-comprimidos semanal com divisórias por período resolve isso por menos que uma consulta.

Ver opções

Link de afiliado. Você não paga a mais por isso.

Fonte e revisão

Conteúdo baseado no Bulário Eletrônico da ANVISA, disponível em consultas.anvisa.gov.br. Publicado em 07/09/2026 e revisado em 07/09/2026. Encontrou alguma divergência? Avise a gente.

Outras bulas de Ansiolíticos e Antidepressivos

Clonazepam

Bula completa de Clonazepam (Clonazepam): indicações, posologia, efeitos colaterais, interações medicamentosas e muito mais. Informações técnicas e acessíveis.

Olanzapina

Bula completa de Olanzapina (Olanzapina): indicações, posologia, efeitos colaterais, interações medicamentosas e contraindicações em linguagem clara.

Gabapentina

Bula completa de Gabapentina (Gabapentina): indicações, posologia, efeitos colaterais, interações medicamentosas e contraindicações em linguagem clara.