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O Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) consolidou-se como uma das maiores epidemias globais de saúde pública do século XXI. Caracterizado por uma combinação de resistência insulínica periférica e disfunção progressiva das células beta pancreáticas, o DM2 exige uma abordagem terapêutica multifacetada para prevenir complicações micro e macrovasculares a longo prazo. No vasto arsenal farmacológico disponível para o manejo desta patologia, as sulfonilureias desempenham um papel histórico e ainda altamente relevante. Entre elas, a gliclazida destaca-se como um agente de segunda geração amplamente prescrito, reconhecido não apenas pela sua eficácia na redução da hemoglobina glicada (HbA1c), mas também pelo seu perfil de segurança cardiovascular e menor risco de hipoglicemia em comparação com as sulfonilureias de primeira geração e outros representantes da mesma classe, como a glibenclamida.
A gestão glicêmica eficaz é o pilar para mitigar o desenvolvimento de retinopatia, nefropatia e neuropatia diabética. A escolha do agente hipoglicemiante oral deve basear-se na fisiopatologia da doença de cada paciente, na tolerabilidade do fármaco, nas comorbidades associadas e na segurança cardiovascular. A gliclazida, especialmente em sua formulação de liberação modificada (MR – Modified Release), oferece uma liberação plasmática que mimetiza de forma mais fisiológica a secreção de insulina em resposta às refeições, garantindo um controle glicêmico estável ao longo de 24 horas com uma única tomada diária. Este artigo visa detalhar de forma profunda e cientificamente robusta as propriedades farmacológicas, clínicas e práticas da gliclazida, servindo como um guia de referência para profissionais de saúde e pacientes.
O que é Gliclazida?
A gliclazida é um fármaco hipoglicemiante oral pertencente à classe das sulfonilureias de segunda geração. Desenvolvida na década de 1970 pelos laboratórios Servier, a molécula foi projetada para otimizar o estímulo à secreção de insulina pelas células beta do pâncreas, enquanto minimizava os efeitos adversos comuns das sulfonilureias mais antigas, como a clorpropamida e a glibenclamida. A sua introdução no mercado terapêutico representou um avanço significativo, pois a gliclazida possui uma estrutura química única, contendo um anel azabiziclooctila heterocíclico, o qual confere propriedades farmacodinâmicas e hemorreológicas particulares ao composto.
No Brasil, a gliclazida foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e está incorporada tanto no sistema de saúde privado quanto no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo um dos pilares do Programa Farmácia Popular do Brasil. O medicamento de referência no mercado nacional é o Diamicron MR®, produzido pela Servier, mas há uma ampla gama de medicamentos genéricos e similares bioequivalentes disponíveis nas farmácias.
As formas farmacêuticas disponíveis no mercado brasileiro compreendem:
- Comprimidos de Liberação Imediata (80 mg): Geralmente administrados duas vezes ao dia, antes das principais refeições. Embora ainda utilizados, têm sido progressivamente substituídos pela formulação de liberação modificada devido à comodidade posológica e menor flutuação dos níveis plasmáticos.
- Comprimidos de Liberação Modificada (30 mg e 60 mg): Tecnologia que utiliza uma matriz hidrofílica de hipromelose. Ao entrar em contato com os fluidos gastrointestinais, a matriz forma um gel que libera a gliclazida de maneira gradual e contínua durante 24 horas, permitindo a administração em dose única diária durante o café da manhã.
Mecanismo de Ação
O mecanismo de ação primário da gliclazida baseia-se no estímulo direto da secreção de insulina pelas células beta funcionais das ilhotas de Langerhans no pâncreas. Trata-se de um agente secretagogo de insulina que atua independentemente dos níveis de glicose circulantes, embora sua eficácia dependa estritamente da integridade e capacidade secretória residual do pâncreas endócrino.
A nível molecular, o processo ocorre através das seguintes etapas:
- Ligação ao Receptor SUR1: A gliclazida liga-se seletivamente aos receptores de sulfonilureia tipo 1 (SUR1), que são subunidades reguladoras dos canais de potássio sensíveis ao ATP (K-ATP) localizados na membrana plasmática das células beta pancreáticas.
- Fechamento dos Canais K-ATP: A ligação ao SUR1 promove o fechamento físico destes canais de potássio, impedindo o efluxo de íons K+ da célula para o meio extracelular.
- Despolarização de Membrana: O acúmulo intracelular de íons potássio altera o potencial elétrico da membrana celular, levando à sua despolarização (o potencial de repouso passa de cerca de -70 mV para aproximadamente -50 mV).
- Abertura de Canais de Cálcio Voltagem-Dependentes: A despolarização induz a abertura de canais de cálcio do tipo L (CaV) voltagem-dependentes na membrana celular.
- Influxo de Cálcio e Exocitose de Insulina: Ocorre um rápido e massivo influxo de íons cálcio (Ca2+) para o citoplasma da célula beta. O aumento do cálcio intracelular ativa proteínas motoras e quinases que medeiam a translocação das vesículas secretoras de insulina para a periferia celular, resultando na fusão destas vesículas com a membrana celular e na consequente liberação de insulina na circulação portal por exocitose.
Além do estímulo direto à secreção de insulina, a gliclazida apresenta efeitos extrapancreáticos que contribuem para sua eficácia clínica:
- Sensibilização Periférica à Insulina: Demonstrou-se que a gliclazida aumenta moderadamente a sensibilidade dos tecidos periféricos (especialmente o músculo esquelético e o tecido adiposo) à ação da insulina, promovendo a translocação de transportadores de glicose (GLUT4) para a membrana celular, o que otimiza a captação periférica de glicose.
- Redução da Produção Hepática de Glicose: O fármaco atua diminuindo a gliconeogênese e a glicogenólise hepáticas, reduzindo a liberação basal de glicose pelo fígado durante os períodos de jejum.
- Propriedades Hemorreológicas e Antioxidantes: Diferente de outras sulfonilureias, a gliclazida possui propriedades antioxidantes intrínsecas devido à sua estrutura química, que atua como um “varredor” de radicais livres de oxigênio. Ela reduz a adesão e agregação plaquetária, diminui os níveis de marcadores inflamatórios endoteliais e estimula a atividade do ativador do plasminogênio tecidual (t-PA), o que confere um efeito protetor contra a microtrombose e o estresse oxidativo vascular.
⚗️ Como Funciona no Organismo?
Farmacocinética e Farmacodinâmica
A farmacocinética da gliclazida varia significativamente entre as formulações de liberação imediata e liberação modificada, sendo esta última a mais clinicamente relevante na atualidade.
Absorção
Após a administração oral da formulação de liberação modificada (MR), a gliclazida é completamente absorvida no trato gastrointestinal. A liberação do princípio ativo é progressiva e linear ao longo de 24 horas. Os níveis plasmáticos aumentam gradualmente, atingindo uma concentração máxima (Cmax) entre 6 e 12 horas após a ingestão. A ingestão concomitante de alimentos não altera a biodisponibilidade total do fármaco, embora reduza a velocidade inicial de absorção, o que é clinicamente irrelevante para a formulação MR, permitindo que o medicamento seja tomado com o café da manhã sem prejuízos terapêuticos.
Distribuição
A gliclazida apresenta uma elevada taxa de ligação às proteínas plasmáticas, principalmente à albumina sérica, correspondendo a aproximadamente 95% do fármaco circulante. Essa alta ligação proteica limita o seu volume de distribuição aparente (Vd), que é relativamente baixo (cerca de 13 a 19 litros). O fármaco atravessa a barreira placentária e é excretado no leite materno em quantidades clinicamente significativas.
Metabolismo
O metabolismo da gliclazida ocorre de forma quase exclusiva no fígado (cerca de 99%). O fármaco sofre biotransformação extensa através de reações de oxidação e hidroxilação, mediadas principalmente pelas isoenzimas do citocromo P450, com destaque para a CYP2C9 e, em menor escala, a CYP2C19. Todos os metabólitos identificados no plasma humano são desprovidos de atividade hipoglicemiante farmacologicamente ativa, o que reduz substancialmente o risco de hipoglicemia prolongada em caso de acúmulo de metabólitos.
Excreção
A eliminação dos metabólitos inativos ocorre predominantemente por via renal, com cerca de 70% a 80% da dose administrada sendo recuperada na urina na forma de metabólitos metabolizados. Menos de 1% da gliclazida é excretada de forma inalterada pela urina. Aproximadamente 10% a 20% da dose é eliminada através das fezes, via excreção biliar. A meia-vida de eliminação plasmática (t½) da gliclazida MR varia entre 12 e 20 horas em adultos saudáveis, o que justifica plenamente o seu regime posológico de dose única diária.
Indicações Terapêuticas
A gliclazida é indicada única e exclusivamente para o tratamento do Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) em adultos. Ela deve ser utilizada quando as modificações no estilo de vida — incluindo terapia nutricional médica direcionada, perda de peso e prática regular de atividade física — isoladamente não forem suficientes para alcançar e manter o controle glicêmico adequado (metas de HbA1c personalizadas).
Diretrizes de Uso Clínico:
- Monoterapia: Como tratamento farmacológico inicial em pacientes que apresentam contraindicação ou intolerância à metformina (por exemplo, pacientes com disfunção gastrointestinal grave ou insuficiência renal moderada onde a metformina exige redução drástica de dose).
- Terapia Combinada Dual ou Tripla: Associada à metformina, inibidores do co-transportador sódio-glicose 2 (iSGLT2), inibidores da dipeptidil peptidase-4 (iDPP4), agonistas do receptor de GLP-1 (aGLP-1) ou insulina, quando o alvo terapêutico de hemoglobina glicada não é atingido com o tratamento de primeira linha.
- Prevenção de Complicações Microvasculares: O estudo clínico de grande escala ADVANCE (Action in Diabetes and Vascular Disease: Preterax and Diamicron MR Controlled Evaluation) demonstrou que o controle glicêmico intensivo baseado em gliclazida MR reduziu significativamente o risco relativo de complicações microvasculares renais (nefropatia diabética nova ou agravada) e reduziu a progressão da proteinúria.
Uso Off-Label Relevante:
Embora não conste formalmente em bula, a gliclazida e outras sulfonilureias são frequentemente utilizadas no tratamento do Diabetes MODY 3 (Maturity-Onset Diabetes of the Young), causado por mutações heterozigóticas no gene HNF1A. Pacientes com MODY 3 apresentam uma sensibilidade extrema às sulfonilureias, respondendo de forma excelente a doses muito baixas de gliclazida, muitas vezes permitindo a descontinuação da insulinoterapia.
Posologia e Forma de Uso
A posologia da gliclazida deve ser estritamente individualizada pelo médico assistente, baseando-se nos níveis de glicemia de jejum, glicemia pós-prandial e nos valores de hemoglobina glicada (HbA1c) do paciente. A dose deve ser titulada de forma gradual para minimizar o risco de hipoglicemia.
Gliclazida de Liberação Modificada (MR) 30 mg ou 60 mg:
- Dose Inicial Recomendada: 30 mg por dia, administrados por via oral, em dose única diária.
- Titulação de Dose: Se o controle glicêmico não for alcançado após 2 a 4 semanas de tratamento, a dose pode ser aumentada para 60 mg, depois para 90 mg e, se necessário, até o limite máximo de 120 mg por dia. Os aumentos devem ser feitos em incrementos de 30 mg.
- Dose Máxima Recomendada: 120 mg por dia (equivalente a 4 comprimidos de 30 mg ou 2 comprimidos de 60 mg).
- Modo de Administração: O comprimido deve ser deglutido inteiro, sem mastigar, partir ou esmagar, com o auxílio de um copo de água, impreterivelmente durante o café da manhã (ou durante a primeira refeição principal do dia, caso o paciente tenha hábitos de jejum matinal). A ingestão junto à refeição é crucial para coordenar o pico de secreção de insulina com a absorção de carboidratos, reduzindo o risco de hipoglicemia.
Transição de outros antidiabéticos orais para a Gliclazida:
Ao substituir outro agente antidiabético oral pela gliclazida MR, não é necessário período de transição ou lavagem (washout), exceto se o paciente estiver migrando de uma sulfonilureia de meia-vida muito longa (como a clorpropamida). Neste caso, o paciente deve ser monitorado de perto por 1 a 2 semanas para evitar o efeito cumulativo dos fármacos, o que poderia culminar em hipoglicemia grave.
Contraindicações
A prescrição de gliclazida exige uma avaliação rigorosa do histórico clínico do paciente. O fármaco apresenta contraindicações absolutas e relativas que devem ser estritamente respeitadas:
Contraindicações Absolutas:
- Hipersensibilidade conhecida: Alergia à gliclazida, a outras sulfonilureias, a sulfonamidas (devido ao risco de reatividade cruzada imunológica) ou a qualquer um dos excipientes da formulação.
- Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1): Pacientes com DM1 apresentam destruição autoimune completa das células beta pancreáticas, tornando os secretagogos totalmente ineficazes.
- Cetoacidose Diabética, Pré-coma ou Coma Diabético: Situações de emergência metabólica aguda que exigem insulinoterapia intravenosa imediata e suporte intensivo.
- Insuficiência Renal Grave: Pacientes com taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) inferior a 30 mL/min/1,73m² não devem utilizar o fármaco devido ao risco acentuado de hipoglicemia prolongada decorrente do clearance reduzido do medicamento.
- Insuficiência Hepática Grave: Comprometimento severo da função hepática diminui drasticamente o metabolismo da gliclazida e reduz a capacidade de gliconeogênese compensatória do fígado em episódios de hipoglicemia.
- Tratamento Concomitante com Miconazol: O uso de miconazol por via sistêmica ou mesmo gel oral é absolutamente contraindicado devido a uma interação farmacocinética potente que eleva drasticamente os níveis de gliclazida, induzindo hipoglicemia severa e potencialmente fatal.
- Gravidez e Lactação: O controle glicêmico em gestantes deve ser realizado exclusivamente com insulina.
Efeitos Colaterais
Embora a gliclazida seja geralmente bem tolerada, a ocorrência de reações adversas é possível. O perfil de segurança da formulação de liberação modificada (MR) mostra-se superior ao da formulação de liberação imediata, com menor incidência de episódios hipoglicêmicos.
Hipoglicemia (O efeito adverso mais comum e clinicamente relevante):
Como ocorre com todas as sulfonilureias, a hipoglicemia pode se manifestar se a dose do medicamento for superior às necessidades do organismo, se o paciente pular refeições, realizar exercícios físicos extenuantes não programados ou consumir bebidas alcoólicas. Os sintomas de hipoglicemia incluem: cefaleia, fome intensa, náuseas, vômitos, fadiga extrema, distúrbios do sono, agitação, agressividade, redução da concentração, vigilância e reatividade, depressão, confusão mental, distúrbios visuais e da fala, afasia, tremores, paresias, perturbações sensoriais, tontura, sensação de impotência, perda de autocontrole, delírio, convulsões, respiração superficial, bradicardia e perda de consciência (coma hipoglicêmico).
Sinais de contra-regulação adrenérgica também podem estar presentes: sudorese fria, pele úmida, ansiedade, taquicardia, hipertensão arterial, palpitações, angina de peito e arritmias cardíacas.
Outros Efeitos Colaterais por Frequência:
- Comuns (ocorre entre 1% e 10% dos pacientes): Distúrbios gastrointestinais leves, incluindo dor abdominal, náuseas, vômitos, dispepsia, diarreia e constipação. Estes sintomas podem ser minimizados administrando-se o medicamento estritamente durante o café da manhã.
- Incomuns (ocorre entre 0,1% e 1% dos pacientes): Reações cutâneas como prurito, urticária, erupção maculopapular, eritema e reações bolhosas.
- Raros (ocorre entre 0,01% e 0,1% dos pacientes):
- Alterações hematológicas reversíveis com a descontinuação do tratamento: anemia, leucopenia, trombocitopenia e granulocitopenia.
- Alterações hepatobiliares: elevação reversível das enzimas hepáticas (AST, ALT, fosfatase alcalina), hepatite colestática ou icterícia. O tratamento deve ser interrompido se surgir icterícia.
- Distúrbios visuais transitórios, causados por flutuações rápidas nos níveis de glicose no sangue no início do tratamento.
Interações Medicamentosas
A gliclazida apresenta um potencial significativo de interação com outros fármacos devido à sua alta taxa de ligação às proteínas plasmáticas e ao seu metabolismo hepático via citocromo P450 (CYP2C9 e CYP2C19).
Fármacos que Aumentam o Risco de Hipoglicemia (Potencializadores do Efeito):
- Miconazol (via sistêmica ou gel oral): Interação contraindicada. Aumenta o efeito hipoglicemiante com possível desencadeamento de manifestações hipoglicêmicas graves ou coma.
- Fenilbutazona (via sistêmica): Associação não recomendada. Desloca a gliclazida de suas ligações proteicas e inibe seu metabolismo hepático. Recomenda-se utilizar outro anti-inflamatório.
- Outros Antidiabéticos e Insulina: O uso combinado exige monitoramento estrito e ajuste fino de doses.
- Betabloqueadores: Mascaram os sintomas de alerta adrenérgicos da hipoglicemia (como tremores e taquicardia). Além disso, betabloqueadores não seletivos podem atrasar a recuperação da glicemia normal após um episódio de hipoglicemia.
- Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA – ex: captopril, enalapril): Podem aumentar a sensibilidade à insulina e potencializar o efeito hipoglicemiante das sulfonilureias.
- Fluconazol: Inibe moderadamente a isoenzima CYP2C9, aumentando a meia-vida plasmática da gliclazida.
Fármacos que Reduzem a Eficácia da Gliclazida (Aumentam o Risco de Hiperglicemia):
- Danazol: Efeito diabetogênico direto. Se a associação for inevitável, a dose de gliclazida deve ser ajustada durante e após o tratamento com danazol.
- Clorpromazina (neuroléptico): Em altas doses (>100 mg/dia), reduz a liberação de insulina pelo pâncreas e aumenta a glicemia.
- Glicocorticoides (vias sistêmica, cutânea, intra-articular ou inalatória): Aumentam a glicose sanguínea através do estímulo à gliconeogênese e indução de resistência insulínica.
- Agonistas Beta-2 Adrenérgicos (ex: salbutamol, terbutalina): Aumentam a glicemia devido aos seus efeitos estimulantes sobre os receptores beta-2 que promovem a glicogenólise.
Uso em Populações Especiais
A segurança e a eficácia da gliclazida exigem precauções específicas quando administrada a determinados subgrupos de pacientes:
Idosos (Acima de 65 anos)
Os idosos são particularmente vulneráveis aos efeitos neuroglicopênicos da hipoglicemia. Sintomas podem se manifestar de forma atípica ou sutil (como confusão mental ou sonolência). O tratamento deve ser iniciado com a menor dose possível (30 mg de gliclazida MR) e a titulação deve ser extremamente cautelosa. Deve-se avaliar rigorosamente a função renal antes e durante o tratamento, pois o declínio fisiológico do ritmo de filtração glomerular aumenta a meia-vida do fármaco.
Insuficiência Renal
Em pacientes com insuficiência renal leve a moderada (TFGe entre 30 e 89 mL/min/1,73m²), a gliclazida MR pode ser utilizada sob monitoramento médico estrito. A dose deve ser mantida na menor faixa eficaz. O fármaco é contraindicado para pacientes com TFGe inferior a 30 mL/min/1,73m².
Insuficiência Hepática
A gliclazida é metabolizada extensivamente pelo fígado. Pacientes com insuficiência hepática leve a moderada exigem cautela e monitoramento frequente das enzimas hepáticas e da glicemia de jejum. Em casos de insuficiência hepática grave, o uso é totalmente contraindicado.
Gestantes e Lactantes
A gliclazida é classificada na Categoria C de risco na gravidez. O uso de sulfonilureias durante a gestação não é recomendado devido ao risco de hipoglicemia neonatal e à falta de dados robustos sobre teratogenicidade. O controle glicêmico de gestantes diabéticas (pré-existentes ou gestacionais) deve ser conduzido exclusivamente com insulina. Mulheres em tratamento com gliclazida que planejam engravidar ou que confirmem a gestação devem suspender o uso imediatamente e migrar para a insulinoterapia sob orientação médica. O fármaco é excretado no leite materno; portanto, a amamentação é contraindicada durante o uso de gliclazida para evitar o risco de hipoglicemia no lactente.
Pediatria
A segurança e a eficácia da gliclazida em crianças e adolescentes com menos de 18 anos de idade ainda não foram estabelecidas. O uso nesta faixa etária não é recomendado.
Superdosagem
A superdosagem acidental ou intencional de gliclazida resulta primariamente em hipoglicemia de gravidade variável, podendo evoluir para quadros neurológicos graves de risco à vida.
Sintomas de Intoxicação/Superdose:
Varia de hipoglicemia leve (sudorese, tremores, irritabilidade, taquicardia) a quadros graves caracterizados por convulsões generalizadas, distúrbios neurosensoriais complexos, respiração de Cheyne-Stokes, choque e coma profundo.
Tratamento de Emergência:
- Hipoglicemia Leve a Moderada (Sem perda de consciência ou déficit neurológico): Deve ser tratada imediatamente com a administração oral de carboidratos de rápida absorção (cerca de 15 a 20g de glicose livre, como água com açúcar, suco de frutas ou refrigerante não dietético), seguido por uma refeição contendo carboidratos complexos (pão, bolachas) para estabilizar a glicemia. A monitorização glicêmica capilar deve ser realizada a cada 15 minutos até a normalização.
- Hipoglicemia Grave (Com coma, convulsões ou incapacidade de deglutição): Requer intervenção médica imediata. Deve ser administrado um bôlus intravenoso de solução de glicose hipertônica (por exemplo, 50 a 100 mL de glicose a 50%), seguido por uma infusão contínua de solução de glicose mais diluída (glicose a 10%) a uma taxa que mantenha a glicemia capilar acima de 100 mg/dL.
- Uso de Octreotida: Em casos de superdosagem massiva por sulfonilureias com hipoglicemia refratária à infusão de glicose hipertônica, o uso de octreotida (um análogo sintético da somatostatina) por via subcutânea ou intravenosa pode ser indicado. A octreotida inibe a secreção reflexa de insulina induzida pela sulfonilureia, ajudando a estabilizar os níveis glicêmicos.
- Monitorização Prolongada: O paciente deve ser monitorado em ambiente hospitalar por no mínimo 24 a 48 horas após a aparente recuperação, pois a gliclazida MR possui liberação prolongada e a hipoglicemia pode reocorrer após a interrupção do suporte de glicose intravenosa.
☠️ Superdosagem (Overdose)
🚨 Em caso de superdosagem: ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro.
Medicamentos Genéricos e Similares
O mercado farmacêutico brasileiro oferece uma ampla gama de opções para a compra de gliclazida, garantindo o acesso ao tratamento de forma econômica e segura. Os medicamentos genéricos e similares são submetidos a testes rigorosos de equivalência farmacêutica e bioequivalência exigidos pela ANVISA, garantindo que possuam a mesma eficácia, segurança e qualidade do medicamento de referência.
Medicamento de Referência:
- Diamicron MR® (Laboratórios Servier): Disponível nas apresentações de 30 mg e 60 mg. É o pioneiro no desenvolvimento da tecnologia de liberação modificada.
Medicamentos Similares Intercambiáveis:
- Azukon MR® (Torrent Do Brasil): Disponível em 30 mg e 60 mg.
- Gliconil® (Nova Química): Formulação similar amplamente distribuída.
- Gliclazida MR (EMS, Medley, Eurofarma, Prati-Donaduzzi, Neo Química): Principais laboratórios nacionais que fabricam o medicamento na forma genérica pura, comercializada sob a denominação comum brasileira (DCB) “Gliclazida”.
Comparativo com Medicamentos da Mesma Classe
As sulfonilureias não são um grupo homogêneo. Embora compartilhem o mesmo mecanismo básico de fechamento dos canais K-ATP, as diferenças na seletividade de receptores, meia-vida e perfil de segurança clínica diferenciam a gliclazida de seus pares.
Gliclazida vs. Glibenclamide:
A glibenclamida (ou gliburida) é uma sulfonilureia de segunda geração clássica, porém apresenta uma taxa de ligação muito forte e prolongada ao receptor SUR1 e possui metabólitos ativos excretados por via renal. Isso resulta em um risco significativamente maior de hipoglicemia grave e prolongada, especialmente em idosos. Além disso, a glibenclamida não é seletiva para o pâncreas, ligando-se também aos receptores SUR2A/B do miocárdio e vasos sanguíneos, o que teoricamente pode prejudicar o pré-condicionamento isquêmico cardíaco. A gliclazida, por sua vez, é altamente seletiva para os receptores SUR1 pancreáticos e possui menor risco de hipoglicemia.
Gliclazida vs. Glimepirida:
A glimepirida é considerada por alguns autores como uma sulfonilureia de terceira geração. Possui uma taxa de dissociação do receptor SUR1 mais rápida que a glibenclamida, apresentando menor risco de hipoglicemia que esta, mas ainda ligeiramente superior ou equivalente ao da gliclazida MR. A glimepirida é administrada uma vez ao dia, mas não possui os mesmos dados robustos de proteção microvascular renal demonstrados pela gliclazida no estudo ADVANCE.
Registro na ANVISA
A gliclazida está devidamente registrada na ANVISA, enquadrando-se na categoria de medicamentos de venda sob prescrição médica. A sua comercialização exige a apresentação de receita médica simples (via única) no ato da compra nas farmácias e drogarias.
O registro do medicamento de referência (Diamicron MR) segue as diretrizes da RDC nº 200/2017 e atualizações da agência reguladora, que atestam a segurança, eficácia e conformidade das práticas de fabricação do insumo farmacêutico ativo (IFA).
Perguntas Frequentes sobre Gliclazida
Onde Comprar Gliclazida?
A gliclazida é um medicamento de fácil acesso no Brasil, disponível em praticamente todas as redes de farmácias e drogarias físicas e online. Para a aquisição, é obrigatória a apresentação de receita médica simples emitida por profissional habilitado (médico generalista ou especialista).
O medicamento faz parte do elenco de fármacos disponibilizados pelo Programa Farmácia Popular do Brasil. Dependendo das diretrizes vigentes e da pactuação do Ministério da Saúde, os pacientes cadastrados no programa podem obter a gliclazida genérica de forma gratuita ou com subsídio de até 90% do valor de referência, bastando apresentar o documento de identidade com foto, CPF e a receita médica dentro do prazo de validade (geralmente 180 dias a partir da emissão).
Os preços comerciais das marcas de referência e genéricos variam de acordo com a dosagem (30 mg ou 60 mg) e a quantidade de comprimidos por embalagem (geralmente 30 ou 60 comprimidos), situando-se em uma faixa de excelente custo-benefício para o tratamento contínuo do diabetes.
Onde comprar Gliclazida
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Fonte e revisão
Conteúdo baseado no Bulário Eletrônico da ANVISA, disponível em consultas.anvisa.gov.br. Publicado em 26/08/2026 e revisado em 26/08/2026. Encontrou alguma divergência? Avise a gente.
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