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Medicamentos para Diabetes

Glibenclamida

25 min de leitura Atualizado em 26/08/2026 Base ANVISA

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O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) representa um dos maiores desafios de saúde pública global do século XXI. Caracterizado por uma combinação de resistência periférica à insulina e disfunção progressiva das células beta pancreáticas, o manejo desta patologia exige uma abordagem terapêutica multifacetada. No vasto arsenal de agentes hipoglicemiantes orais, a classe das sulfonilureias desempenha um papel histórico e ainda extremamente relevante. Entre elas, a glibenclamida destaca-se como um dos fármacos mais prescritos, eficazes e acessíveis do mundo.

Incluída na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS), a glibenclamida é uma sulfonilureia de segunda geração amplamente utilizada para o controle glicêmico em pacientes com DM2. Apesar do surgimento de novas classes terapêuticas, como os inibidores de SGLT2 e os agonistas do receptor de GLP-1, a glibenclamida permanece como um pilar do tratamento farmacológico, especialmente em cenários de recursos limitados, devido ao seu excelente custo-benefício e alta potência na redução da hemoglobina glicada (HbA1c). No entanto, seu manejo clínico requer profundo conhecimento farmacológico para mitigar riscos importantes, como a hipoglicemia e o ganho de peso.

Neste artigo, exploraremos detalhadamente a farmacologia clínica da glibenclamida, abordando desde o seu mecanismo de ação molecular até suas indicações, posologia, perfil de segurança e interações medicamentosas, oferecendo um guia completo para profissionais de saúde e pacientes.

O que é Glibenclamida?

A glibenclamida (conhecida internacionalmente como gliburida) é um fármaco hipoglicemiante oral pertencente à classe das sulfonilureias de segunda geração. Desenvolvida no final da década de 1960 e introduzida na prática clínica nos anos 1970, ela representou um avanço significativo em relação às sulfonilureias de primeira geração (como a clorpropamida e a tolbutamida), apresentando uma potência terapêutica centenas de vezes maior, o que permitiu a utilização de doses diárias substancialmente menores (na escala de miligramas em vez de gramas) e um perfil de tolerabilidade significativamente superior.

No Brasil, a glibenclamida possui aprovação regulatória da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) há décadas e está plenamente consolidada no mercado farmacêutico nacional. O medicamento de referência histórico no país é o Daonil®, desenvolvido pela Sanofi, mas atualmente o mercado é amplamente abastecido por uma vasta gama de medicamentos genéricos e similares de alta qualidade.

A glibenclamida está disponível no mercado brasileiro principalmente sob a forma de comprimidos de 5 mg. Também pode ser encontrada em associações de dose fixa com outros antidiabéticos, mais notavelmente com o cloridrato de metformina (em apresentações como 2,5 mg/500 mg e 5 mg/500 mg), uma combinação sinérgica que visa tratar simultaneamente a deficiência de secreção de insulina e a resistência insulínica periférica.

Mecanismo de Ação

O efeito hipoglicemiante da glibenclamida é mediado primariamente pelo estímulo direto à secreção de insulina endógena pelas células beta das ilhotas de Langerhans no pâncreas. Trata-se, portanto, de um agente secretagogo de insulina, cujo funcionamento depende obrigatoriamente da presença de células beta pancreáticas funcionalmente ativas.

Do ponto de vista molecular, o mecanismo de ação da glibenclamida ocorre através das seguintes etapas:

1. Ligação ao Receptor SUR1: A glibenclamida difunde-se pela membrana celular e liga-se com alta afinidade à subunidade SUR1 (receptor de sulfonilureia tipo 1), que está intimamente associada ao canal de potássio sensível ao ATP ($K_{ATP}$) na membrana plasmática da célula beta pancreática.
2. Fechamento dos Canais $K_{ATP}$: A ligação do fármaco ao receptor SUR1 promove o fechamento físico destes canais de potássio. Em condições fisiológicas normais, estes canais fecham-se em resposta ao aumento da relação ATP/ADP intracelular decorrente do metabolismo da glicose. A glibenclamida mimetiza este estado, bloqueando o canal independentemente das concentrações extracelulares de glicose.
3. Despolarização da Membrana: O bloqueio do efluxo de íons potássio ($K^+$) resulta no acúmulo de cargas positivas no interior da célula, levando à despolarização da membrana celular (o potencial de membrana passa de aproximadamente -70 mV para cerca de -30 mV).
4. Abertura dos Canais de Cálcio Voltagem-Dependentes: A despolarização da membrana celular ativa os canais de cálcio do tipo L voltagem-dependentes, permitindo um influxo maciço de íons cálcio ($Ca^{2+}$) para o meio intracelular.
5. Exocitose de Insulina: O aumento substancial da concentração de cálcio citosólico livre ativa proteínas quinases dependentes de cálcio, que promovem a translocação e a fusão dos grânulos secretores de insulina com a membrana celular, resultando na liberação rápida e massiva de insulina na circulação portal.

⚗️ Como Funciona no Organismo?

Além do seu efeito pancreático primário, têm sido propostos alguns efeitos extrapancreáticos para a glibenclamida, embora sua relevância clínica seja secundária. Estes efeitos incluem o aumento da sensibilidade dos tecidos periféricos (músculo esquelético e tecido adiposo) à insulina, mediado pela translocação de transportadores de glicose (GLUT-4), e a redução da produção hepática de glicose (gliconeogênese e glicogenólise). No entanto, clinicamente, o fármaco é incapaz de reduzir a glicemia de forma eficaz em pacientes que perderam totalmente a capacidade de secretar insulina (como no diabetes tipo 1 ou em fases muito avançadas do diabetes tipo 2).

Farmacocinética e Farmacodinâmica

A compreensão do perfil farmacocinético e farmacodinâmico da glibenclamida é fundamental para otimizar sua eficácia terapêutica e prevenir eventos adversos graves, especialmente a hipoglicemia prolongada.

Absorção

A glibenclamida é rápida e quase completamente absorvida pelo trato gastrointestinal após administração oral. A biodisponibilidade do fármaco é alta, situando-se geralmente acima de 85%. O pico de concentração plasmática ($C_{max}$) é atingido entre 2 e 4 horas após a ingestão de uma dose única. A presença de alimentos no estômago pode retardar ligeiramente o tempo para atingir a concentração máxima ($T_{max}$), mas não reduz a extensão total da absorção do medicamento. Por esta razão, recomenda-se a administração imediatamente antes ou durante a primeira refeição principal do dia.

Distribuição

Uma vez na circulação sistêmica, a glibenclamida apresenta uma taxa de ligação a proteínas plasmáticas extremamente elevada, superior a 99%, ligando-se predominantemente à albumina de forma não iônica. Esta característica é clinicamente relevante, pois fármacos que competem pelos mesmos sítios de ligação proteica podem deslocar a glibenclamida, aumentando temporariamente sua fração livre ativa e elevando o risco de hipoglicemia. O volume aparente de distribuição ($V_d$) é relativamente baixo, tipicamente em torno de 0,1 a 0,2 L/kg, refletindo sua alta afinidade proteica e limitação ao compartimento vascular.

Metabolismo

A glibenclamida sofre metabolização hepática quase completa através do sistema enzimático do citocromo P450, principalmente pela isoenzima CYP2C9, com contribuição menor de outras isoformas como a CYP3A4. O metabolismo gera dois metabólitos principais: o 4-trans-hidróxi-glibenclamida e o 3-cis-hidróxi-glibenclamida. O metabólito 4-trans possui atividade hipoglicemiante residual moderada (cerca de 15% a 25% da potência do composto original), enquanto o metabólito 3-cis é considerado praticamente inativo. Em indivíduos com função renal normal, a atividade destes metabólitos é clinicamente insignificante, mas eles podem acumular-se de forma perigosa em pacientes com insuficiência renal.

Excreção

A eliminação da glibenclamida ocorre de forma equilibrada entre as vias renal e biliar. Aproximadamente 50% da dose administrada é excretada na urina sob a forma de metabólitos, enquanto os restantes 50% são eliminados nas fezes através da excreção biliar. Apenas uma fração mínima (menos de 1%) do fármaco é excretada de forma inalterada. A meia-vida de eliminação plasmática ($t_{1/2}$) da glibenclamida varia entre 5 a 10 horas em indivíduos saudáveis. No entanto, a sua meia-vida biológica (duração do efeito hipoglicemiante) é significativamente mais longa, estendendo-se por 12 a 24 horas. Isto ocorre devido à forte e persistente associação do fármaco com o receptor SUR1 nas células beta pancreáticas, o que permite a administração em dose única diária na maioria dos pacientes.

Indicações Terapêuticas

A glibenclamida está indicada exclusivamente para o tratamento do Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) em adultos, quando o controle glicêmico adequado não pôde ser alcançado apenas com modificações no estilo de vida, incluindo terapia nutricional direcionada, redução de peso corporal e prática regular de exercícios físicos.

O fármaco pode ser utilizado em diferentes estratégias terapêuticas:

* Monoterapia: Como tratamento farmacológico inicial em pacientes com DM2 sem contraindicações para sulfonilureias, especialmente quando a metformina não é tolerada ou é contraindicada.
* Terapia Combinada Oral: Associada a outros agentes antidiabéticos orais com mecanismos de ação complementares. A combinação mais comum e baseada em evidências é com a metformina (um sensibilizador de insulina). Também pode ser combinada com inibidores da dipeptidil peptidase-4 (DPP-4), inibidores de SGLT2 ou tiazolidinedionas (pioglitazona).
* Terapia Combinada com Insulina: Em pacientes que apresentam falência secundária parcial às sulfonilureias, a glibenclamida pode ser mantida em associação com uma dose de insulina basal (geralmente NPH ou análogos de ação prolongada ao deitar), visando otimizar o controle glicêmico e reduzir a dose total de insulina necessária.

Uso Off-Label de Relevância Científica

Embora não conste formalmente na bula aprovada pela ANVISA, a glibenclamida possui uma indicação off-label de extrema relevância na endocrinologia pediátrica: o tratamento do Diabetes Mellitus Neonatal causado por mutações ativadoras nos genes KCNJ11 ou ABCC8, que codificam as subunidades Kir6.2 e SUR1 do canal $K_{ATP}$ pancreático. Nestes pacientes específicos, os canais de potássio permanecem patologicamente abertos, impedindo a secreção de insulina. A administração de doses elevadas de glibenclamida é capaz de fechar estes canais mutados, permitindo que muitas destas crianças abandonem completamente a insulinoterapia injetável e obtenham um controle glicêmico excelente por via oral.

Posologia e Forma de Uso

A dose de glibenclamida deve ser estritamente individualizada pelo médico assistente, baseando-se nos resultados de exames de glicemia de jejum, glicemia pós-prandial e níveis de hemoglobina glicada (HbA1c). O princípio fundamental para a prescrição de glibenclamida é “iniciar com dose baixa e aumentar progressivamente” (start low and go slow), minimizando o risco de hipoglicemia aguda.

Orientações de Administração

Os comprimidos de glibenclamida devem ser deglutidos inteiros, sem mastigar, com quantidade suficiente de líquido (aproximadamente meio copo de água). O momento da administração é crucial: o medicamento deve ser tomado imediatamente antes ou durante a primeira refeição substancial do dia (geralmente o café da manhã ou, em pacientes que não tomam café da manhã, o almoço). É terminantemente proibido tomar o medicamento em jejum sem realizar uma refeição subsequente, devido ao risco iminente de hipoglicemia grave.

Esquema Posológico Padrão

* Dose Inicial: A dose inicial recomendada para a maioria dos pacientes adultos é de 2,5 mg a 5 mg por dia, administrada antes do café da manhã. Em pacientes propensos à hipoglicemia (como idosos debilitados ou pacientes com disfunção renal/hepática leve a moderada), o tratamento deve ser iniciado com a menor dose possível de 1,25 mg por dia (metade de um comprimido de 2,5 mg ou utilizando apresentações específicas).
* Ajuste e Titulação: Se o controle glicêmico não for alcançado após 1 a 2 semanas de tratamento, a dose pode ser aumentada em incrementos de 2,5 mg. Os ajustes devem ser espaçados por intervalos mínimos de uma semana para permitir a estabilização dos níveis plasmáticos e avaliação do efeito terapêutico máximo.
* Dose de Manutenção: A dose de manutenção usual situa-se entre 5 mg e 10 mg por dia. Doses diárias de até 10 mg podem ser administradas em tomada única diária antes do café da manhã.
* Dose Máxima Recomendada: A dose máxima diária é de 15 mg a 20 mg. No entanto, estudos clínicos demonstram que doses superiores a 10 mg ao dia raramente promovem reduções adicionais significativas na glicemia (efeito platô), mas aumentam substancialmente o risco de efeitos colaterais. Caso o paciente necessite de doses superiores a 10 mg/dia, recomenda-se dividir a dose total em duas tomadas: a maior parte antes do café da manhã e o restante antes do jantar.

Contraindicações

A glibenclamida é um fármaco potente e de eliminação prolongada, o que impõe uma série de contraindicações absolutas e relativas para garantir a segurança do paciente.

Contraindicações Absolutas

* Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1): Pacientes com DM1 apresentam destruição autoimune completa das células beta pancreáticas e ausência de produção de insulina endógena. A glibenclamida é totalmente ineficaz e perigosa nestes casos.
* Cetoacidose Diabética (CAD) e Estado Hiperosmolar Hiperglicêmico (EHH): Emergências metabólicas agudas que requerem hidratação venosa imediata e insulinoterapia endovenosa contínua.
* Pré-coma ou Coma Diabético: Estados de alteração do sensório decorrentes de descompensação metabólica extrema.
* Insuficiência Renal Grave (Clarence de Creatinina < 30 mL/min ou TFGe correspondente): Risco crítico de acúmulo de metabólitos ativos e do próprio fármaco, levando a quadros de hipoglicemia refratária e potencialmente fatais.
* Insuficiência Hepática Grave: O fígado é o principal sítio de metabolização do fármaco e desempenha papel central na gliconeogênese de contrarregulação da hipoglicemia. A disfunção hepática grave eleva drasticamente os níveis do fármaco e anula a capacidade de defesa do organismo contra quedas glicêmicas.
* Gravidez e Lactação: Risco de teratogenicidade nos primeiros trimestres e, fundamentalmente, risco de hipoglicemia neonatal grave e prolongada ao nascimento.
* Tratamento Concomitante com Bosentana: Risco aumentado de hepatotoxicidade grave devido ao bloqueio competitivo mútuo do transportador de sais biliares (BSEP).
* Hipersensibilidade Conhecida: Pacientes com alergia comprovada à glibenclamida, a outras sulfonilureias, sulfonamidas (devido ao risco de reatividade cruzada) ou a qualquer componente da formulação.

Contraindicações Relativas / Precauções Extremas

* Deficiência de Glicose-6-Fosfato Desidrogenase (G6PD): O uso de sulfonilureias em pacientes com deficiência de G6PD pode desencadear anemia hemolítica aguda. Deve-se considerar alternativas terapêuticas que não pertençam a esta classe.
* Idade Avançada (acima de 65-70 anos): Risco desproporcionalmente elevado de hipoglicemia grave e de difícil reversão (ver seção de Populações Especiais).

Efeitos Colaterais

Como qualquer agente farmacológico ativo, a glibenclamida pode causar efeitos adversos. O perfil de segurança do medicamento é dominado pelo risco de hipoglicemia e pelo ganho ponderal, decorrentes diretamente do seu mecanismo de ação secretagogo.

Hipoglicemia: O Principal Efeito Adverso

A hipoglicemia é o efeito colateral mais comum, clinicamente significativo e potencialmente perigoso da glibenclamida. Pode manifestar-se de forma súbita e prolongada, exigindo por vezes hospitalização por vários dias. Os sintomas dividem-se em:
* Sintomas Adrenérgicos (Autônomos): Sudorese fria, tremores, taquicardia, palpitações, ansiedade, fome intensa, palidez e midríase. Estes sintomas representam a ativação do sistema nervoso simpático na tentativa de elevar a glicemia.
* Sintomas Neuroglicopênicos: Cefaleia, tonturas, fadiga extrema, sonolência, alterações visuais (visão dupla ou turva), dificuldade de concentração, confusão mental, comportamento anormal, irritabilidade, perda de coordenação motora, convulsões e, em casos extremos, coma e morte cerebral.

Classificação dos Efeitos Adversos por Frequência

* Muito Comuns (ocorrem em mais de 10% dos pacientes):
* Hipoglicemia leve a moderada (especialmente no início do tratamento ou após aumentos de dose).
* Comuns (ocorrem entre 1% e 10% dos pacientes):
* Ganho de peso corporal (geralmente entre 1 kg e 3 kg, decorrente do efeito anabólico da insulina e da redução da glicosúria).
* Distúrbios gastrointestinais leves: náuseas, vômitos, sensação de plenitude gástrica, pirose (azia) e dor epigástrica. Estes sintomas costumam ser transitórios e atenuados pela ingestão do fármaco junto às refeições.
* Incomuns (ocorrem entre 0,1% e 1% dos pacientes):
* Reações cutâneas de hipersensibilidade: prurido, urticária, erupções maculopapulares e fotossensibilidade (sensibilidade aumentada à luz solar).
* Alterações visuais transitórias no início do tratamento, decorrentes de flutuações rápidas nos níveis de glicose no sangue que alteram o índice de refração do cristalino.
* Raros (ocorrem em menos de 0,1% dos pacientes):
* Distúrbios hematológicos: trombocitopenia (redução de plaquetas), leucopenia (redução de glóbulos brancos), agranulocitose, anemia hemolítica e pancitopenia. Estas reações são geralmente reversíveis com a descontinuação do fármaco.
* Disfunção hepatobiliar: elevação de enzimas hepáticas (AST, ALT, fosfatase alcalina), hepatite medicamentosa, colestase intra-hepática e icterícia.
* Hiponatremia (redução do sódio plasmático), por vezes associada à síndrome de secreção inapropriada de hormônio antidiurético (SIADH), embora este efeito seja muito mais comum com a clorpropamida.

Interações Medicamentosas

A glibenclamida apresenta um potencial significativo de interação com uma ampla variedade de substâncias. Estas interações podem tanto potencializar o efeito hipoglicemiante (elevando o risco de hipoglicemia severa) quanto atenuar sua eficácia (levando à perda do controle glicêmico e hiperglicemia).

Fármacos que Potencializam o Efeito Hipoglicemiante

A coadministração destes agentes com a glibenclamida exige monitoramento glicêmico rigoroso e, frequentemente, redução da dose da sulfonilureia:

* Inibidores potentes da CYP2C9 (ex: Fluconazol, Miconazol, Voriconazol): Inibem o metabolismo hepático da glibenclamida, aumentando drasticamente sua meia-vida e concentração plasmática. O uso de miconazol por via oral ou gel oral é formalmente contraindicado.
* Salicilatos e outros Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs): Deslocam a glibenclamida das proteínas plasmáticas e possuem atividade hipoglicemiante intrínseca fraca.
* Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA – ex: Enalapril, Captopril): Podem aumentar a sensibilidade periférica à insulina, potencializando a queda glicêmica.
* Betabloqueadores (ex: Propranolol, Atenolol): Além de poderem mascarar os sintomas adrenérgicos de alerta da hipoglicemia (como taquicardia e tremores), eles podem retardar a recuperação dos níveis de glicose ao inibir a glicogenólise mediada pela adrenalina. Os betabloqueadores cardiosseletivos (como o metoprolol) apresentam menor risco, mas ainda exigem cautela.
* Álcool (Etanol): O consumo agudo de álcool inibe a gliconeogênese hepática, o que pode desencadear crises de hipoglicemia profunda, prolongada e refratária em pacientes que utilizam glibenclamida. O consumo crônico pode acelerar o metabolismo do fármaco por indução enzimática.
* Outros Antidiabéticos: O uso combinado com insulina ou outros secretagogos exige ajuste posológico cuidadoso.

Fármacos que Reduzem o Efeito Hipoglicemiante** (Risco de Hiperglicemia)

* Corticosteroides (ex: Prednisona, Dexametasona): Promovem resistência insulínica acentuada, aumentam a gliconeogênese hepática e reduzem a captação periférica de glicose.
* Diuréticos Tiazídicos (ex: Hidroclorotiazida): Podem diminuir a secreção de insulina pelas células beta, em parte devido à hipocalemia que podem induzir.
* Indutores da CYP2C9 (ex: Rifampicina, Carbamazepina, Fenitoína): Aceleram a metabolização hepática da glibenclamida, reduzindo sua eficácia terapêutica de forma significativa.
* Hormônios Tireoidianos, Estrogênios e Contraceptivos Orais: Podem elevar as necessidades diárias de glibenclamida por mecanismos metabólicos complexos.

Uso em Populações Especiais

A prescrição de glibenclamida deve ser extremamente criteriosa em determinados grupos de pacientes devido a variações fisiológicas que alteram a farmacocinética do medicamento ou aumentam sua toxicidade.

Idosos (População de Alto Risco)

A glibenclamida é considerada um medicamento potencialmente inapropriado para idosos segundo os Critérios de Beers e as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Com o envelhecimento, ocorre um declínio fisiológico da taxa de filtração glomerular, mesmo na presença de creatinina sérica aparentemente normal, além de uma redução na percepção autônoma dos sintomas de hipoglicemia (hipoglicemia assintomática). O uso de glibenclamida nesta população está associado a taxas elevadas de internações hospitalares por hipoglicemia grave e prolongada, quedas, fraturas e eventos cardiovasculares agudos. Preferencialmente, deve-se optar por sulfonilureias de menor duração ou outras classes de antidiabéticos. Se estritamente necessária, deve ser usada na menor dose possível e sob vigilância constante.

Insuficiência Renal

Como cerca de 50% dos metabólitos da glibenclamida são eliminados por via renal, e alguns destes metabólitos possuem atividade hipoglicemiante ativa, o declínio da função renal leva ao acúmulo destas substâncias no organismo.
* Estágios 1 a 3a (TFGe > 45 mL/min): Pode ser utilizada com extrema cautela e monitoramento frequente.
* Estágio 3b (TFGe 30-44 mL/min): Não recomendada. O risco de hipoglicemia supera os benefícios.
* Estágios 4 e 5 (TFGe < 30 mL/min ou diálise): Contraindicada de forma absoluta.

Insuficiência Hepática

A integridade da função hepática é vital para a depuração da glibenclamida. Em pacientes com insuficiência hepática leve a moderada, as doses devem ser significativamente reduzidas e tituladas de forma muito lenta. Na insuficiência hepática grave, o medicamento é estritamente contraindicado.

Gestantes e Lactantes

A glibenclamida atravessa a barreira placentária. Embora os dados sobre teratogenicidade direta sejam limitados, o uso de sulfonilureias no final da gestação está associado a casos graves de hipoglicemia neonatal prolongada (que pode durar dias após o nascimento devido à estimulação prolongada do pâncreas do feto). Portanto, o controle glicêmico de gestantes diabéticas deve ser realizado obrigatoriamente com insulina, que não atravessa a placenta. A glibenclamida deve ser descontinuada assim que a gravidez for planejada ou confirmada. Da mesma forma, o fármaco é excretado no leite materno, contraindicando seu uso durante a lactação pelo risco de hipoglicemia no lactente.

Superdosagem

A superdosagem de glibenclamida, seja acidental ou intencional (tentativa de autofrenação), resulta em um quadro de hipoglicemia grave, prolongada e potencialmente fatal. Devido à longa meia-vida biológica do fármaco e à sua capacidade de continuar estimulando a liberação de insulina mesmo em níveis glicêmicos extremamente baixos, a superdosagem de glibenclamida é considerada uma emergência médica de alta complexidade.

Sinais e Sintomas

O quadro clínico é dominado pela neuroglicopenia: confusão mental, agitação psicomotora, comportamento psicótico, convulsões generalizadas, déficits neurológicos focais transitórios (que mimetizam um Acidente Vascular Cerebral) e coma hipoglicêmico profundo.

Tratamento de Emergência

1. Estabilização Inicial: Avaliação das vias aéreas, respiração e circulação (ABC da emergência).
2. Administração de Glicose:
* Paciente Consciente: Administrar carboidratos de rápida absorção por via oral (água com açúcar, suco de frutas, refrigerante não dietético).
* Paciente Inconsciente ou Convulsionando: Administrar imediatamente um bolus endovenoso de glicose hipertônica (geralmente 20 a 50 ml de glicose a 50%). Após a recuperação inicial do nível de consciência, deve-se manter uma infusão contínua de glicose a 5% ou 10% para manter a glicemia em níveis seguros (geralmente acima de 100 mg/dL).
3. Monitoramento Prolongado: O paciente deve ser mantido sob observação hospitalar contínua por no mínimo 24 a 48 horas. É extremamente comum a ocorrência de hipoglicemia de rebote após a interrupção da infusão de glicose, pois a glicose exógena estimula ainda mais a liberação de insulina pelo pâncreas já hiperestimulado pela glibenclamida.
4. Uso de Octreotida (Antídoto de Escolha): Em casos de hipoglicemia refratária ou recorrente induzida por sulfonilureias, a administração de octreotida (um análogo sintético de ação prolongada da somatostatina) por via subcutânea ou endovenosa (50 a 100 mcg a cada 6-12 horas) é altamente eficaz. A octreotida bloqueia diretamente o influxo de cálcio nas células beta pancreáticas, suprimindo de forma potente a secreção excessiva de insulina induzida pela glibenclamida.
5. Glucagon: A administração de glucagon (intramuscular ou subcutâneo) pode ser utilizada em ambiente extra-hospitalar como medida temporária de resgate, mas seu efeito é transitório e pode, paradoxalmente, estimular uma maior liberação secundária de insulina.

☠️ Superdosagem (Overdose)

🚨 Em caso de superdosagem: ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro.

Medicamentos Genéricos e Similares

A glibenclamida é um medicamento de baixo custo e amplamente disponível no mercado farmacêutico brasileiro. A ANVISA garante a intercambiabilidade dos medicamentos genéricos através de testes rigorosos de bioequivalência e equivalência farmacêutica, assegurando que o medicamento genérico produza exatamente o mesmo efeito terapêutico que o medicamento de referência.

* Medicamento de Referência: Daonil® (Sanofi-Aventis).
* Principais Medicamentos Similares: Medgliben® (Medley), Glibeneck® (Neo Química).
* Medicamentos Genéricos: Produzidos por diversos laboratórios farmacêuticos licenciados no Brasil, incluindo EMS, Medley, Eurofarma, Prati-Donaduzzi, Germed, Cimed, Neo Química, entre outros. Geralmente comercializados sob a denominação comum brasileira “Glibenclamida” em embalagens contendo comprimidos de 5 mg.
* Associações de Dose Fixa: A glibenclamida também é comercializada em associação com a metformina. O medicamento de referência desta associação é o GlucoNorm® (ou Glucovance®), existindo também diversas opções de genéricos da associação “Cloridrato de Metformina + Glibenclamida”.

Comparativo com Medicamentos da Mesma Classe

As sulfonilureias diferem significativamente entre si em termos de potência, seletividade de receptor, meia-vida de eliminação, vias de excreção e, consequentemente, perfil de segurança cardiovascular e risco de hipoglicemia.

A glibenclamida é caracterizada por sua alta potência e longa duração de ação, o que a torna altamente eficaz na redução da glicemia, mas também a associa ao maior risco de hipoglicemia entre todas as sulfonilureias de segunda geração. Em contrapartida, medicamentos como a gliclazida apresentam maior seletividade pelos receptores SUR1 pancreáticos (poupando os receptores SUR2 cardíacos) e possuem uma depuração mais favorável, resultando em taxas significativamente menores de hipoglicemia e melhor perfil de segurança cardiovascular demonstrado em grandes estudos clínicos (como o estudo ADVANCE).

A glimepirida, uma sulfonilureia mais moderna (frequentemente classificada como de terceira geração), possui uma taxa de dissociação do receptor SUR1 muito mais rápida do que a glibenclamida, o que reduz o risco de estimulação pancreática prolongada na ausência de glicose e diminui a incidência de episódios hipoglicêmicos graves.

Registro na ANVISA

A glibenclamida é um medicamento devidamente registrado e regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

* Classe Terapêutica: Antidiabéticos Orais / Sulfonilureias.
* Tipo de Receita: Receita Simples (Branca Comum). Não está sujeita a controle especial (Portaria 344/98), mas sua venda e dispensação exigem obrigatoriamente a apresentação da receita médica atualizada.
* Critérios de Registro: Os fabricantes de genéricos e similares devem apresentar estudos de bioequivalência em humanos para demonstrar que a taxa e a extensão de absorção do seu produto não apresentam diferenças significativas em relação ao medicamento de referência (Daonil®).

ANVISA — Agência Nacional de Vigilância Sanitária

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Perguntas Frequentes sobre Glibenclamida

Onde Comprar Glibenclamida?

A glibenclamida é um dos medicamentos mais acessíveis para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2, estando amplamente disponível em todo o território nacional.

Programa Farmácia Popular do Brasil

A glibenclamida de 5 mg faz parte do elenco de medicamentos do Programa Farmácia Popular do Brasil, uma iniciativa do Governo Federal. Através deste programa, o medicamento é distribuído de forma 100% gratuita à população nas farmácias credenciadas (que exibem o selo “Aqui Tem Farmácia Popular”). Para obter o medicamento gratuitamente, o paciente deve apresentar:
1. Receita médica válida (emitida por serviço de saúde público ou privado, com validade de até 180 dias a partir da data de emissão).
2. Documento oficial de identidade com foto que conste o número do CPF.

Rede Pública de Saúde (SUS)

A glibenclamida também consta na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) e é distribuída gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e farmácias municipais do Sistema Único de Saúde (SUS), mediante apresentação de prescrição médica do SUS.

Rede Particular e Farmácias Comerciais

Caso o paciente opte por adquirir o medicamento em farmácias comerciais fora do programa governamental, o custo é extremamente baixo. O preço médio de uma caixa de Glibenclamida 5 mg com 30 comprimidos varia geralmente entre R$ 3,00 e R$ 10,00, dependendo do laboratório fabricante e da região do país.

Onde comprar Glibenclamida

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Fonte e revisão

Conteúdo baseado no Bulário Eletrônico da ANVISA, disponível em consultas.anvisa.gov.br. Publicado em 26/08/2026 e revisado em 26/08/2026. Encontrou alguma divergência? Avise a gente.

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