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Medicamentos para Pressão e Coração

Clopidogrel

22 min de leitura Atualizado em 18/08/2026 Base ANVISA

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As doenças cardiovasculares permanecem como a principal causa de morbidade e mortalidade em todo o mundo. No epicentro da fisiopatologia dessas condições, particularmente no infarto agudo do miocárdio e no acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, encontra-se o processo de aterotrombose. Quando uma placa aterosclerótica se rompe no interior de uma artéria, a rápida adesão, ativação e agregação das plaquetas formam um trombo oclusivo que interrompe o fluxo sanguíneo, resultando em isquemia tecidual crítica. Para combater esse mecanismo patológico, a medicina moderna conta com uma classe fundamental de medicamentos: os antiagregantes plaquetários.

Entre esses fármacos, o Clopidogrel (frequentemente comercializado sob a forma de Bissulfato de Clopidogrel) destaca-se como um dos pilares da cardiologia e da neurologia vascular contemporâneas. Desde a sua introdução no mercado global, este agente revolucionou o manejo de pacientes coronariopatas, indivíduos submetidos à intervenção coronária percutânea (angioplastia com implante de stent) e sobreviventes de eventos vasculares cerebrais. Sua capacidade de inibir de forma seletiva e irreversível a agregação plaquetária reduz significativamente o risco de novos eventos isquêmicos, salvando milhões de vidas anualmente.

Este artigo técnico-científico foi elaborado para fornecer uma análise profunda, baseada em evidências e clinicamente precisa sobre o Clopidogrel. Aqui, profissionais de saúde e pacientes encontrarão informações detalhadas sobre sua farmacologia, indicações, posologia, interações medicamentosas críticas e aspectos práticos de seu uso clínico diário.

O que é Clopidogrel?

O Clopidogrel é um fármaco antiagregante plaquetário pertencente à classe química das tienopiridinas de segunda geração. Ele foi desenvolvido na década de 1990 pelas empresas farmacêuticas Sanofi e Bristol-Myers Squibb como um sucessor da ticlopidina, apresentando um perfil de segurança significativamente superior, especialmente no que diz respeito à redução de efeitos colaterais hematológicos graves, como a neutropenia severa.

Aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos em 1997 e, posteriormente, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) no Brasil, o Clopidogrel consolidou-se sob o nome comercial de referência Plavix®. Atualmente, o medicamento está amplamente disponível no mercado brasileiro tanto na sua forma de referência quanto em diversas versões de genéricos e similares de alta qualidade.

No Brasil, a apresentação padrão do Clopidogrel disponível nas farmácias e hospitais é o comprimido revestido contendo 75 mg de base ativa (equivalente a 97,875 mg de bissulfato de clopidogrel). Essa dosagem diária única foi estabelecida após extensos ensaios clínicos que demonstraram o equilíbrio ideal entre a eficácia na prevenção de eventos trombóticos e a minimização dos riscos de sangramento.

Mecanismo de Ação

Para compreender o mecanismo de ação do Clopidogrel, é necessário entender primeiro o papel do difosfato de adenosina (ADP) na fisiologia plaquetária. O ADP é um nucleotídeo armazenado nos grânulos densos das plaquetas. Quando ocorre uma lesão vascular, o ADP é liberado e atua como um potente agonista autócrino e paracrino, ligando-se a receptores específicos na superfície plaquetária para amplificar o processo de ativação e agregação.

Existem dois receptores principais de ADP na membrana plaquetária: o receptor P2Y1 e o receptor P2Y12. Enquanto o receptor P2Y1 inicia a ativação plaquetária e uma mudança de forma temporária na célula, o receptor P2Y12 é o principal responsável pela amplificação da agregação plaquetária, pela secreção de grânulos adicionais e pela estabilização do agregado plaquetário através da ativação do complexo de glicoproteína IIb/IIIa (GP IIb/IIIa), que se liga ao fibrinogênio.

O Clopidogrel é um pró-fármaco inativo que requer biotransformação hepática para se transformar em seu metabólito ativo. Uma vez formado, este metabólito ativo liga-se de forma seletiva e irreversível ao receptor purinérgico P2Y12 acoplado à proteína Gi na superfície das plaquetas. Essa ligação impede o ADP de se acoplar ao receptor, bloqueando a subsequente inibição da adenilato ciclase e a consequente queda nos níveis intracelulares de monofosfato de adenosina cíclico (AMPc). Com os níveis de AMPc mantidos elevados, a via de sinalização intracelular que ativa o complexo GP IIb/IIIa é bloqueada, impedindo a ligação do fibrinogênio e a agregação plaquetária.

Como a ligação do metabólito ativo do Clopidogrel ao receptor P2Y12 é irreversível, as plaquetas expostas ao fármaco são afetadas pelo restante de sua vida útil (aproximadamente 7 a 10 dias). A recuperação da função plaquetária normal ocorre gradualmente à medida que novas plaquetas são produzidas pela medula óssea e liberadas na circulação, a uma taxa de cerca de 10% a 12% ao dia.

⚗️ Como Funciona no Organismo?

Farmacocinética e Farmacodinâmica

A farmacocinética do Clopidogrel é complexa devido à sua natureza de pró-fármaco e à necessidade de ativação metabólica multifásica. Compreender essas etapas é crucial para entender a variabilidade na resposta clínica entre diferentes pacientes.

Absorção e Distribuição

Após a administração oral, o Clopidogrel é rapidamente absorvido pelo trato gastrointestinal. A absorção é de pelo menos 50%, e a presença de alimentos não altera significativamente a sua biodisponibilidade. No entanto, o Clopidogrel é um substrato da glicoproteína-P (P-gp), um transportador de efluxo intestinal, o que pode influenciar a taxa e a extensão de sua absorção em alguns indivíduos.

O Clopidogrel e o seu principal metabólito circulante (inativo) ligam-se de forma reversível e altamente eficiente às proteínas plasmáticas humanas (principalmente à albumina), com taxas de ligação de aproximadamente 98% e 94%, respectivamente.

Metabolismo e Ativação Hepática

Este é o aspecto farmacocinético mais crítico do Clopidogrel. Após a absorção, cerca de 85% a 90% do Clopidogrel circulante é rapidamente hidrolisado por esterases plasmáticas e hepáticas em um derivado carboxílico inativo (SR 26334), que não possui qualquer atividade antiagregante. Apenas os 10% a 15% restantes do composto original passam pelo metabolismo oxidativo mediado pelo sistema do citocromo P450 (CYP450) no fígado.

Essa ativação oxidativa ocorre em duas etapas enzimáticas consecutivas:

  1. Primeira etapa: O Clopidogrel é convertido em 2-oxo-clopidogrel. Esta etapa é mediada principalmente pelas isoenzimas CYP2C19, CYP1A2 e CYP2B6.
  2. Segunda etapa: O 2-oxo-clopidogrel é subsequentemente hidrolisado para formar o metabólito ativo (um derivado tiol instável, denominado UR-3826). Esta etapa é mediada principalmente pelas isoenzimas CYP2C19, CYP2C9, CYP3A4 e CYP3A5.

Devido ao papel central da enzima CYP2C19 em ambas as etapas da ativação, polimorfismos genéticos que resultam em perda de função dessa enzima (como os alelos CYP2C192 e 3) reduzem drasticamente a formação do metabólito ativo, levando a uma menor inibição plaquetária e a um maior risco de eventos cardiovasculares adversos, como a trombose de stent. Esses pacientes são classificados como “metabolizadores lentos”.

Excreção

A eliminação do Clopidogrel ocorre por via renal e fecal. Aproximadamente 50% da dose administrada oralmente é excretada na urina e cerca de 46% nas fezes, ao longo de um período de 120 horas após a dosagem. A meia-vida de eliminação do metabólito circulante principal (inativo) é de aproximadamente 8 horas.

Farmacodinâmica e Início de Ação

Após a administração de doses diárias repetidas de 75 mg de Clopidogrel, a inibição da agregação plaquetária induzida pelo ADP atinge um estado de equilíbrio (steady state) de 40% a 60% entre o 3º e o 7º dia de tratamento. Quando é necessária uma inibição rápida (como em síndromes coronarianas agudas), administra-se uma dose de ataque de 300 mg a 600 mg. Com uma dose de ataque de 300 mg, a inibição plaquetária significativa é observada em 2 horas e atinge o pico em 4 a 6 horas. Com uma dose de ataque de 600 mg, o início de ação é ainda mais rápido (cerca de 1 hora) e atinge uma inibição mais homogênea e profunda.

Indicações Terapêuticas

O Clopidogrel possui indicações clínicas robustas e bem estabelecidas por grandes ensaios clínicos internacionais (como os estudos CAPRIE, CURE, COMMIT, CLARITY e CHARISMA). Ele é indicado para a prevenção secundária de eventos aterotrombóticos em pacientes que apresentam as seguintes condições:

1. Síndrome Coronariana Aguda (SCA)

O Clopidogrel é indicado para o manejo de pacientes com SCA, que engloba:

  • SCA sem elevação do segmento ST (SCA-SEST): Inclui a angina instável e o infarto agudo do miocárdio sem elevação do segmento ST (IAMSEST). Nestes pacientes, o Clopidogrel é utilizado em associação com o Ácido Acetilsalicílico (AAS) – uma estratégia conhecida como Dupla Antiagregação Plaquetária (DAPT) – para reduzir a taxa de morte cardiovascular, infarto recorrente ou AVC.
  • SCA com elevação do segmento ST (SCA-CEST): No infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST (IAMCEST), o Clopidogrel é associado ao AAS em pacientes tratados clinicamente, submetidos à terapia fibrinolítica (trombolíticos) ou submetidos à Intervenção Coronária Percutânea (ICP) primária.

2. Infarto do Miocárdio Recente, AVC Isquêmico Recente ou Doença Arterial Periférica (DAP)

Em pacientes com história de infarto do miocárdio recente (de poucos dias até menos de 35 dias), AVC isquêmico recente (de 7 dias até menos de 6 meses) ou doença arterial periférica estabelecida (claudicação intermitente ou histórico de revascularização arterial periférica), o Clopidogrel em monoterapia demonstrou ser superior ao AAS na redução de novos eventos isquêmicos (morte vascular, reinfarto ou AVC recorrente), conforme demonstrado no histórico estudo CAPRIE.

3. Prevenção de Trombose de Stent

Pacientes submetidos à angioplastia coronariana com implante de stents (sejam eles convencionais/metálicos ou farmacológicos) têm indicação absoluta de terapia com DAPT (Clopidogrel + AAS) para prevenir a trombose aguda, subaguda ou tardia do stent, uma complicação altamente letal.

4. Fibrilação Atrial (FA)

Em pacientes com fibrilação atrial que possuem pelo menos um fator de risco para eventos vasculares e que não podem receber terapia com anticoagulantes orais (como varfarina ou novos anticoagulantes/DOACs) devido a contraindicações ou preferência pessoal, o Clopidogrel associado ao AAS é indicado para a prevenção de eventos aterotrombóticos e tromboembólicos, incluindo o AVC.

Posologia e Forma de Uso

O Clopidogrel deve ser administrado por via oral, em dose única diária, com ou sem alimentos. Os comprimidos devem ser engolidos inteiros, com um copo de água, de preferência sempre no mesmo horário todos os dias para garantir uma inibição plaquetária estável.

Esquemas Posológicos Recomendados

  • Infarto do Miocárdio Recente, AVC Isquêmico Recente ou Doença Arterial Periférica Estabelecida: A dose recomendada é de 75 mg uma vez ao dia, por via oral. Não há necessidade de dose de ataque nesta indicação de prevenção secundária crônica.
  • Síndrome Coronariana Aguda sem Elevação do Segmento ST (SCA-SEST): O tratamento deve ser iniciado com uma dose de ataque única de 300 mg (ou 600 mg em casos selecionados que irão para angioplastia imediata), seguida pela dose de manutenção de 75 mg uma vez ao dia, associada ao AAS (75 mg a 100 mg por dia). A duração ideal da DAPT geralmente varia de 1 a 12 meses, dependendo do risco isquêmico versus o risco de sangramento do paciente.
  • Síndrome Coronariana Aguda com Elevação do Segmento ST (SCA-CEST):
    • Pacientes com menos de 75 anos tratados com trombolíticos ou terapia médica: Dose de ataque de 300 mg, seguida de 75 mg uma vez ao dia, associada ao AAS.
    • Pacientes com 75 anos ou mais: Não deve ser administrada dose de ataque. O tratamento deve ser iniciado diretamente com a dose de manutenção de 75 mg uma vez ao dia, associada ao AAS.
    • Pacientes submetidos à Angioplastia Primária: Dose de ataque de 600 mg é frequentemente utilizada para obter uma antiagregação mais rápida e intensa, seguida por 75 mg ao dia.

Esquecimento de Dose

Se o paciente esquecer de tomar uma dose de Clopidogrel, a conduta depende do tempo decorrido:

  • Se o esquecimento for percebido em até 12 horas do horário habitual: O paciente deve tomar o comprimido esquecido imediatamente e a dose seguinte no horário regular.
  • Se o esquecimento for percebido após 12 horas: O paciente deve pular a dose esquecida e tomar a próxima dose no horário habitual. Nunca se deve dobrar a dose para compensar uma dose perdida, pois isso aumenta significativamente o risco de sangramentos.

Contraindicações

O Clopidogrel é um medicamento potente que altera a hemostasia primária. Portanto, seu uso é estritamente contraindicado em determinadas situações clínicas para evitar complicações hemorrágicas graves.

Contraindicações Absolutas

  • Hipersensibilidade ativa: Alergia conhecida ao bissulfato de clopidogrel ou a qualquer componente da formulação (como reações de hipersensibilidade cutânea ou anafilaxia).
  • Sangramento patológico ativo grave: Presença de hemorragia ativa clinicamente significativa, como hemorragia intracraniana, hemorragia digestiva ativa (decorrente de úlcera péptica ativa, por exemplo) ou sangramento retroperitoneal.
  • Insuficiência hepática grave: Pacientes com disfunção hepática grave (Child-Pugh Classe C) apresentam alto risco de sangramento devido à síntese deficiente de fatores de coagulação.

Contraindicações Relativas e Precauções

  • Cirurgia programada de grande porte: Se um paciente sob terapia com Clopidogrel precisar ser submetido a uma cirurgia eletiva na qual o efeito antiagregante seja indesejável, o medicamento deve ser descontinuado 5 a 7 dias antes do procedimento, após avaliação criteriosa do risco de eventos isquêmicos (especialmente em portadores de stents coronarianos recentes).
  • Traumatismo recente: Pacientes que sofreram traumas físicos graves devem ser monitorados de perto devido ao risco de hemorragias internas ocultas.
  • Distúrbios hemorrágicos preexistentes: Pacientes com hemofilia, trombocitopenia ou outras diáteses hemorrágicas devem usar o medicamento com extrema cautela.

Efeitos Colaterais

Como qualquer agente antitrombótico, o principal e mais comum efeito adverso associado ao Clopidogrel é o sangramento (hemorragia). A gravidade e a frequência das hemorragias dependem da dose administrada, da associação com outros fármacos (como AAS, anticoagulantes e anti-inflamatórios não esteroides) e das comorbidades do paciente.

Classificação dos Efeitos Adversos por Frequência

Comuns (ocorrem em 1% a 10% dos pacientes)

  • Hemorragia gastrointestinal (melena, hematêmese, sangramento oculto nas fezes).
  • Hematomas cutâneos (equimoses e petéquias).
  • Epistaxe (sangramento nasal).
  • Hematúria (sangramento na urina).
  • Dispepsia, dor abdominal, diarreia e gastrite.
  • Sangramento no local de punção/injeção.

Incomuns (ocorrem em 0,1% a 1% dos pacientes)

  • Trombocitopenia (redução do número de plaquetas).
  • Leucopenia ou eosinofilia.
  • Hemorragia intracraniana (raro, mas extremamente grave; manifesta-se por cefaleia súbita e intensa, déficits neurológicos ou alteração do nível de consciência).
  • Hemorragia ocular (conjuntival ou retiniana).
  • Úlcera gástrica ou duodenal.
  • Cefaleia, tontura, parestesia (formigamento).
  • Erupções cutâneas (rash) e prurido.

Raros (ocorrem em 0,01% a 0,1% dos pacientes)

  • Neutropenia grave ou agranulocitose.
  • Hemorragia retroperitoneal.
  • Ginecomastia.
  • Vertigem.

Muito Raros (ocorrem em menos de 0,01% dos pacientes)

  • Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT): Uma condição gravíssima caracterizada por trombocitopenia, anemia hemolítica microangiopática, alterações neurológicas, disfunção renal e febre. Requer tratamento de emergência imediato com plasmaférese.
  • Insuficiência hepática aguda, hepatite ou testes anormais de função hepática.
  • Vasculite, síndrome de hipersensibilidade medicamentosa (DRESS).
  • Hemorragia do trato respiratório (hemoptise, hemorragia pulmonar).
  • Glomerulonefrite.

Interações Medicamentosas

As interações medicamentosas com o Clopidogrel são de extrema relevância clínica, pois podem comprometer a eficácia terapêutica (aumentando o risco de infarto ou AVC) ou potencializar a toxicidade (aumentando o risco de hemorragias graves).

Interações que Reduzem a Eficácia do Clopidogrel

Fármacos que inibem a atividade da enzima CYP2C19 diminuem a conversão do Clopidogrel em seu metabólito ativo, reduzindo o seu efeito antiagregante plaquetário. As principais interações desta categoria incluem:

  • Inibidores da Bomba de Prótons (IBPs): O Omeprazol e o Esomeprazol são potentes inibidores da CYP2C19. O uso concomitante deve ser evitado. Se o paciente necessitar de proteção gástrica com IBP, recomenda-se a substituição por Pantoprazol ou Rabeprazol, que possuem menor capacidade de inibição da CYP2C19 e não reduzem significativamente a eficácia do Clopidogrel.
  • Outros inibidores da CYP2C19: Fluoxetina, fluvoxamina, ciprofloxacino, cimetidina, fluconazol, cetoconazol, ticlopidina, carbamazepina e etravirina.

Interações que Aumentam o Risco de Sangramento

O uso concomitante de Clopidogrel com outros medicamentos que afetam a hemostasia resulta em um efeito sinérgico que eleva exponencialmente o risco hemorrágico:

  • Anticoagulantes orais: Varfarina, rivaroxabana, apixabana, dabigatrana e edoxabana. O uso concomitante (terapia dupla ou tripla) deve ser reservado a indicações muito específicas (como pacientes com FA submetidos à angioplastia) e monitorado rigorosamente.
  • Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs): Ibuprofeno, diclofenaco, naproxeno, cetoprofeno, meloxicam, entre outros. Os AINEs aumentam o risco de sangramento gastrointestinal oculto e erosão da mucosa gástrica.
  • Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRSs): Fluoxetina, sertralina, paroxetina, citalopram e escitalopram. A recaptação de serotonina pelas plaquetas é crucial para a ativação plaquetária; os ISRSs reduzem esse mecanismo, aumentando o risco de sangramentos cutâneos e mucosos quando associados ao Clopidogrel.
  • Ácido Acetilsalicílico (AAS): Embora a associação seja terapêutica na DAPT, o risco de sangramento é inerentemente superior ao da monoterapia.

Uso em Populações Especiais

O manejo do Clopidogrel requer ajustes e considerações específicas em determinados grupos de pacientes para garantir a segurança e eficácia do tratamento.

Gestantes (Categoria de Risco B)

Não existem estudos clínicos adequados e bem controlados sobre o uso de Clopidogrel em mulheres grávidas. Os estudos em animais não demonstraram efeitos nocivos diretos ou indiretos na gravidez ou no desenvolvimento fetal. No entanto, como precaução, o uso de Clopidogrel durante a gestação deve ser evitado, a menos que seja estritamente necessário e sob supervisão médica direta.

Lactantes

Estudos em ratas lactantes demonstraram que o Clopidogrel e/ou seus metabólitos são excretados no leite materno. Não se sabe se o Clopidogrel é excretado no leite humano. Devido ao potencial de reações adversas graves no lactente, a amamentação deve ser descontinuada durante o tratamento com Clopidogrel.

Idosos

Pacientes idosos (especialmente aqueles com mais de 75 anos) apresentam um risco aumentado de sangramento devido à fragilidade vascular e à presença de múltiplas comorbidades. Não há necessidade de ajuste posológico sistemático apenas com base na idade, mas a dose de ataque de 300 mg deve ser omitida no cenário de IAMCEST tratado com trombolíticos em pacientes com ≥ 75 anos.

Insuficiência Renal

A experiência terapêutica com Clopidogrel é limitada em pacientes com insuficiência renal grave (depuração de creatinina < 30 mL/min). Embora não haja recomendações de ajuste de dose, o fármaco deve ser utilizado com cautela nesses pacientes devido ao risco intrínseco de disfunção plaquetária uremica.

Insuficiência Hepática

O Clopidogrel deve ser usado com extrema cautela em pacientes com insuficiência hepática moderada, que podem apresentar diátese hemorrágica. O uso é totalmente contraindicado na insuficiência hepática grave.

Farmacogenômica: Metabolizadores Lentos da CYP2C19

Pacientes que possuem variantes genéticas de perda de função da CYP2C19 apresentam menor eficácia do Clopidogrel. Em cenários de alto risco isquêmico (como após angioplastia coronariana complexa), os cardiologistas podem optar por realizar testes genéticos ou de função plaquetária e, se necessário, substituir o Clopidogrel por outros antiagregantes mais potentes que não dependem da CYP2C19 para ativação, como o Prasugrel ou o Ticagrelor.

Superdosagem

A superdosagem de Clopidogrel pode levar a um prolongamento acentuado do tempo de sangramento e a subsequentes complicações hemorrágicas generalizadas. Os sintomas clínicos esperados são manifestações hemorrágicas cutâneas, mucosas ou viscerais.

Manejo Clínico da Superdosagem

Não existe um antídoto farmacológico específico ou agente reversor direto para o Clopidogrel.

  • Se for necessária uma reversão rápida dos efeitos antiagregantes (em caso de sangramento grave incontrolável ou cirurgia de emergência), a transfusão de plaquetas é a medida terapêutica mais eficaz. A administração de plaquetas exógenas viáveis ajuda a restaurar a capacidade de agregação hemostática, neutralizando o efeito do metabólito ativo circulante (desde que o medicamento já tenha sido eliminado do plasma).
  • Medidas gerais de suporte devem ser instituídas, incluindo controle de sangramentos locais, reposição volêmica e suporte hemodinâmico, se necessário.

☠️ Superdosagem (Overdose)

🚨 Em caso de superdosagem: ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro.

Medicamentos Genéricos e Similares

O Clopidogrel foi um dos medicamentos que mais se beneficiou da introdução de genéricos no mercado farmacêutico brasileiro. Após a expiração da patente do medicamento de referência, o Plavix® (fabricado pela Sanofi), a ANVISA aprovou diversas marcas de genéricos e similares que oferecem a mesma eficácia clínica a um custo significativamente mais acessível.

Os medicamentos genéricos de Clopidogrel contêm exatamente o mesmo princípio ativo (Bissulfato de Clopidogrel) na mesma concentração (75 mg) e formato farmacêutico. Para serem aprovados pela ANVISA, esses medicamentos passam por rigorosos testes de bioequivalência e equivalência farmacêutica, garantindo que a taxa e a extensão de absorção do fármaco no organismo sejam idênticas às do medicamento de referência.

Além dos genéricos (comercializados sob o nome “Bissulfato de Clopidogrel”), existem excelentes medicamentos similares intercambiáveis no mercado nacional, tais como:

  • Iscover® (Sanofi-Aventis)
  • Clopivix® (Nova Química)
  • Platogrel® (Torrent)
  • Clopigran® (Legrand)

Comparativo com Medicamentos da Mesma Classe

A classe dos antiagregantes plaquetários orais evoluiu consideravelmente nos últimos anos. Atualmente, o Clopidogrel divide espaço com outros dois agentes modernos da classe dos inibidores do receptor P2Y12: o Prasugrel (uma tienopiridina de terceira geração) e o Ticagrelor (um ciclopentiltriazolopirimidina, de ligação reversível).

Clopidogrel vs. Prasugrel

O Prasugrel (Effient®) é um pró-fármaco mais potente, com início de ação mais rápido e menor variabilidade metabólica que o Clopidogrel. No entanto, o Prasugrel apresenta um risco significativamente maior de sangramento grave. Ele é contraindicado em pacientes com histórico de AVC ou Ataque Isquêmico Transitório (AIT), pacientes com mais de 75 anos ou com peso corporal inferior a 60 kg.

Clopidogrel vs. Ticagrelor

O Ticagrelor (Brilinta®) é um inibidor direto e reversível do receptor P2Y12. Ele não requer ativação metabólica hepática e oferece uma inibição plaquetária mais rápida e consistente que o Clopidogrel. Contudo, deve ser administrado duas vezes ao dia (a cada 12 horas) e está associado a efeitos colaterais específicos, como dispneia (falta de ar) transitória e pausas ventriculares assintomáticas.

Registro na ANVISA

O Bissulfato de Clopidogrel está devidamente registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), cumprindo todas as exigências de eficácia, segurança e qualidade farmacêutica estabelecidas pela legislação brasileira.

Trata-se de um medicamento de venda sob prescrição médica, cuja dispensação nas farmácias exige a apresentação da Receita Comum (Branca) de via única. Não está sujeito ao controle especial da Portaria 344/98, mas seu uso deve ser estritamente monitorado por cardiologistas, neurologistas ou clínicos gerais devido ao risco de sangramento e à necessidade de acompanhamento periódico da função hematológica e cardiovascular.

ANVISA — Agência Nacional de Vigilância Sanitária

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Perguntas Frequentes sobre Clopidogrel

Onde Comprar Clopidogrel?

O Clopidogrel é um medicamento de ampla distribuição e fácil acesso no Brasil. Ele pode ser adquirido em praticamente todas as redes de farmácias e drogarias físicas, bem como em plataformas de e-commerce farmacêutico.

Por ser um fármaco essencial para a prevenção de eventos cardiovasculares secundários, o Clopidogrel também está incluído na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) e é fornecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e farmácias municipais, mediante apresentação de receita médica atualizada do SUS.

O preço médio do Clopidogrel genérico (75 mg com 30 comprimidos) varia de R$ 15,00 a R$ 60,00, dependendo da região, da marca do fabricante e da aplicação de descontos de programas de fidelidade ou convênios das farmácias. O medicamento de referência (Plavix®) possui um valor superior, geralmente variando entre R$ 120,00 e R$ 200,00 para a mesma apresentação.

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Fonte e revisão

Conteúdo baseado no Bulário Eletrônico da ANVISA, disponível em consultas.anvisa.gov.br. Publicado em 18/08/2026 e revisado em 18/08/2026. Encontrou alguma divergência? Avise a gente.

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