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A descoberta do aciclovir, no final da década de 1970, representou um dos maiores marcos na história da farmacologia moderna e da virologia clínica. Até o advento desta molécula, o tratamento de infecções virais era marcado por compostos altamente tóxicos que frequentemente danificavam as células do hospedeiro humano tanto quanto combatiam os patógenos. O aciclovir inaugurou a era da terapia antiviral altamente seletiva, demonstrando que era possível inibir a replicação viral sem comprometer a viabilidade das células sadias. Esse feito científico rendeu aos seus desenvolvedores, Gertrude B. Elion e George H. Hitchings, o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1988.
Hoje, o aciclovir continua sendo a pedra angular no manejo terapêutico de infecções causadas pela família de vírus Herpesviridae, incluindo o vírus do herpes simples (HSV-1 e HSV-2) e o vírus da varicela-zóster (VZV). Sua eficácia clínica, perfil de segurança consolidado e ampla disponibilidade nas redes pública e privada de saúde consolidam este medicamento como uma ferramenta indispensável na prática médica global. Neste artigo, exploraremos de forma aprofundada os aspectos farmacológicos, clínicos, posológicos e de segurança do aciclovir, servindo como um guia de referência completo para profissionais de saúde e pacientes.
O que é Aciclovir?
O aciclovir é um agente antiviral sintético, análogo nucleosídico da purina (especificamente da guanosina), utilizado no tratamento e profilaxia de infecções causadas por vírus DNA específicos. Quimicamente designado como 2-amino-1,9-di-hidro-9-((2-hidroxietóxi)metil)-6H-purin-6-ona, o fármaco apresenta uma estrutura acíclica na porção correspondente à ribose, o que impede a formação de ligações fosfodiéster cruciais para o alongamento da cadeia de DNA viral.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou o aciclovir há várias décadas, e ele consta na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), sendo distribuído gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O medicamento de referência original é o Zovirax®, desenvolvido pela antiga Burroughs Wellcome (atualmente GSK). Atualmente, o aciclovir está disponível no mercado farmacêutico brasileiro em diversas apresentações físicas, adaptadas para diferentes vias de administração e gravidades clínicas:
- Comprimidos: Nas concentrações de 200 mg e 400 mg, indicados para o tratamento sistêmico por via oral.
- Creme dermatológico (50 mg/g – 5%): Destinado ao tratamento tópico de infecções cutâneas localizadas, como o herpes labial.
- Pomada oftálmica (30 mg/g – 3%): Formulada especificamente para o tratamento de ceratite herpética.
- Pó liofilizado para solução injetável (250 mg): Para administração por infusão intravenosa (IV), reservado para casos graves, infecções neonatais, encefalite herpética ou pacientes imunocomprometidos.
Mecanismo de Ação
O sucesso terapêutico do aciclovir reside na sua excepcional seletividade e no seu mecanismo de ativação compartimentado. O aciclovir em si é uma pró-droga farmacologicamente inativa que requer três etapas consecutivas de fosforilação para se transformar em sua forma ativa, o aciclovir trifosfato (ACV-TP).
A primeira e mais crítica etapa de fosforilação — a conversão do aciclovir em aciclovir monofosfato — é catalisada exclusivamente pela enzima timidina quinase (TK) viral. As células humanas normais e não infectadas possuem sua própria timidina quinase, porém esta apresenta uma afinidade extremamente baixa (cerca de 3.000 a 1 milhão de vezes menor) pelo aciclovir. Consequentemente, a ativação inicial do fármaco ocorre quase que exclusivamente em células infectadas pelo vírus, poupando os tecidos sadios de efeitos citotóxicos.
Uma vez formado o aciclovir monofosfato, enzimas celulares do próprio hospedeiro (guanilato quinase e outras quinases inespecíficas) realizam a segunda e a terceira fosforilação, convertendo-o em aciclovir difosfato e, finalmente, em aciclovir trifosfato (ACV-TP), a molécula ativa.
O ACV-TP atua de duas maneiras principais para interromper a replicação viral:
- Inibição Competitiva: O ACV-TP compete ativamente com o desoxiguanosina trifosfato (dGTP) natural pelo sítio de ligação da enzima DNA polimerase viral.
- Terminação de Cadeia de DNA: Quando a DNA polimerase viral incorpora o aciclovir trifosfato na fita de DNA em crescimento, o processo de replicação é permanentemente interrompido. Como o aciclovir carece do grupo 3′-hidroxila necessário para a ligação do próximo nucleotídeo, torna-se impossível adicionar novos monômeros à cadeia de DNA, resultando na interrupção irreversível da síntese genômica viral (mecanismo conhecido como “suicídio enzimático”).
⚗️ Como Funciona no Organismo?
Farmacocinética e Farmacodinâmica
A compreensão do perfil farmacocinético do aciclovir é essencial para a otimização terapêutica, ajuste de doses e prevenção de toxicidade sistêmica.
Absorção
Por via oral, a absorção do aciclovir é relativamente baixa e variável. A biodisponibilidade oral é estimada entre 15% e 30%, diminuindo progressivamente com o aumento da dose devido à saturação dos mecanismos de transporte ativo no epitélio intestinal. A ingestão concomitante de alimentos não altera significativamente a extensão da absorção oral do aciclovir. Após a administração oral de 200 mg a cada 4 horas, as concentrações plasmáticas máximas em estado de equilíbrio (Cmax) variam em torno de 0,4 a 0,8 mcg/mL.
Distribuição
O aciclovir apresenta uma ampla distribuição tecidual devido à sua baixa ligação às proteínas plasmáticas (apenas 9% a 33%). O volume aparente de distribuição é de aproximadamente 0,6 a 0,8 L/kg. O fármaco atinge concentrações terapêuticas significativas em diversos fluidos e tecidos corporais, incluindo saliva, secreções vaginais, fluido vesicular de lesões herpéticas, útero e rins. Notavelmente, a concentração no líquido cefalorraquidiano (LCR) atinge cerca de 50% dos níveis plasmáticos correspondentes, o que viabiliza o tratamento de infecções do sistema nervoso central, como a encefalite herpética.
Metabolismo e Eliminação
O metabolismo hepático do aciclovir é mínimo. O único metabólito urinário significativo é a 9-carboximetoximetilguanina (9-carboximetoxi-MG), que representa cerca de 10% a 15% da dose administrada. A principal via de eliminação do aciclovir é a excreção renal, ocorrendo por meio de filtração glomerular e secreção tubular ativa. Em pacientes com função renal normal, aproximadamente 60% a 91% da dose de aciclovir intravenoso é excretada inalterada na urina em até 24 horas.
A meia-vida de eliminação plasmática (t½) do aciclovir em adultos com função renal preservada é de aproximadamente 2,5 a 3,3 horas. Contudo, em pacientes com insuficiência renal crônica em estágio terminal, a meia-vida pode se estender para até 20 horas, exigindo rigorosos ajustes de dose.
Indicações Terapêuticas
O aciclovir possui indicações clínicas bem estabelecidas, baseadas em ensaios clínicos robustos e diretrizes nacionais e internacionais de infectologia. Ele é indicado principalmente para:
- Herpes Simplex Cutâneo e Mucoso (HSV-1 e HSV-2): Tratamento de episódios iniciais e recorrentes de infecções herpéticas na pele e membranas mucosas, incluindo o herpes genital e o herpes labial primário ou recorrente.
- Supressão de Herpes Simplex: Profilaxia de longo prazo para prevenir recorrências frequentes (6 ou mais episódios por ano) de herpes genital ou labial em indivíduos imunocompetentes.
- Profilaxia de Herpes Simplex em Imunocomprometidos: Prevenção de infecções por HSV em pacientes gravemente imunodeprimidos, como indivíduos sob quimioterapia oncológica, transplantados de órgãos sólidos ou de medula óssea, e pacientes com infecção avançada pelo HIV.
- Varicela (Catapora): Tratamento da infecção aguda pelo vírus varicela-zóster em pacientes imunocompetentes e imunocomprometidos. O início do tratamento nas primeiras 24 horas após o surgimento do exantema está associado a uma redução significativa na gravidade e duração das lesões cutâneas e sintomas sistêmicos.
- Herpes Zóster (Cobreiro): Tratamento de infecções agudas por VZV em adultos. O aciclovir acelera a cicatrização das lesões cutâneas, reduz a dor associada à fase aguda e diminui a incidência e a severidade da neuralgia pós-herpética (NPH), especialmente se iniciado nas primeiras 72 horas após o aparecimento do rash cutâneo.
- Encefalite por Herpes Simplex: Tratamento de emergência de infecções do sistema nervoso central por HSV em adultos e crianças (administração exclusivamente intravenosa).
- Herpes Neonatal: Tratamento de infecções neonatais graves causadas por HSV adquiridas durante o parto (administração exclusivamente intravenosa).
Uso Off-Label
Embora não conste formalmente em bula para estas finalidades, o aciclovir é frequentemente prescrito de forma off-label em situações clínicas específicas, tais como a profilaxia de infecções por Citomegalovírus (CMV) em receptores de transplante (embora o ganciclovir e o valganciclovir sejam mais eficazes) e no manejo coadjuvante da paralisia de Bell, quando há suspeita de etiologia herpética associada.
Posologia e Forma de Uso
A administração correta do aciclovir depende diretamente da indicação clínica, da idade do paciente, da via de administração escolhida e da integridade da função renal do indivíduo. O tratamento deve ser iniciado o mais precocemente possível, idealmente aos primeiros sinais ou sintomas de infecção (como prurido, queimação ou dor local antes do aparecimento das vesículas).
Via Oral (Comprimidos)
- Herpes Simplex (Tratamento de episódios agudos): 200 mg, administrados 5 vezes ao dia, com intervalos de aproximadamente 4 horas, omitindo-se a dose noturna. O período de tratamento usual é de 5 dias, podendo ser estendido em infecções iniciais graves.
- Supressão de Herpes Simplex (Recorrências): 400 mg, 2 vezes ao dia (a cada 12 horas), ou 200 mg, 4 vezes ao dia (a cada 6 horas). O tratamento deve ser reavaliado periodicamente pelo médico (geralmente a cada 6 a 12 meses).
- Herpes Zóster: 800 mg, administrados 5 vezes ao dia, com intervalos de aproximadamente 4 horas, omitindo-se a dose noturna, por um período de 7 dias.
- Varicela (Catapora) em Adultos e Crianças acima de 6 anos: 800 mg, 4 vezes ao dia, por 5 dias.
- Varicela em Crianças de 2 a 5 anos: 400 mg, 4 vezes ao dia, por 5 dias.
- Varicela em Crianças menores de 2 anos: 200 mg, 4 vezes ao dia, por 5 dias (ou dose calculada por peso: 20 mg/kg por dose, até o limite de 800 mg por dose, 4 vezes ao dia).
Via Tópica (Creme e Pomada Oftálmica)
- Creme Dermatológico (5%): Aplicar sobre as lesões existentes ou em fase de desenvolvimento 5 vezes ao dia, em intervalos de aproximadamente 4 horas, omitindo a dose noturna. O tratamento deve continuar por pelo menos 4 dias para herpes labial e por até 10 dias se a cicatrização completa não ocorrer.
- Pomada Oftálmica (3%): Aplicar uma faixa de 1 cm de pomada no saco conjuntival inferior do olho afetado, 5 vezes ao dia, com intervalos de aproximadamente 4 horas. O tratamento deve ser mantido por pelo menos 3 dias após a cicatrização completa da ceratite.
Via Intravenosa (Infusão)
A via intravenosa é restrita ao ambiente hospitalar. A dose padrão para adultos com função renal normal é de 5 mg/kg a 10 mg/kg a cada 8 horas, infundida lentamente ao longo de pelo menos 1 hora para evitar a precipitação de cristais de aciclovir nos túbulos renais. Para encefalite por HSV, a dose recomendada é de 10 mg/kg a cada 8 horas.
Contraindicações
O aciclovir apresenta um perfil de segurança altamente favorável, mas existem contraindicações formais e precauções que devem ser rigorosamente observadas:
Contraindicações Absolutas
- Hipersensibilidade conhecida: Pacientes com histórico de reações alérgicas graves (como anafilaxia, angioedema ou síndrome de Stevens-Johnson) ao aciclovir, ao valaciclovir (que é convertido em aciclovir in vivo) ou a qualquer componente da formulação (como propilenoglicol no caso do creme tópico).
Contraindicações Relativas e Precauções
- Desidratação e Insuficiência Renal: Pacientes desidratados ou com função renal comprometida correm risco elevado de desenvolver nefrotoxicidade induzida pelo aciclovir (nefropatia obstrutiva por deposição de cristais nos túbulos renais). O ajuste de dose baseado no clearance de creatinina é obrigatório, e a hidratação vigorosa deve ser mantida durante o tratamento sistêmico, especialmente por via intravenosa.
- Distúrbios Neurológicos Prévios: Pacientes com histórico de alterações neurológicas (psicose, convulsões, coma) ou que estejam recebendo outras drogas neurotóxicas devem ser monitorados de perto, pois o aciclovir sistêmico pode desencadear ou exacerbar sintomas neuropsiquiátricos.
Efeitos Colaterais
A maioria dos pacientes tolera bem o aciclovir. Os efeitos colaterais variam de acordo com a via de administração (oral, tópica ou intravenosa) e o estado clínico geral do paciente.
Efeitos Adversos da Administração Oral e Intravenosa
- Reações Comuns (> 1/100 e < 1/10): Cefaleia (dor de cabeça), tontura, náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal, prurido (coceira), erupções cutâneas (rash), fadiga e febre.
- Reações Incomuns (> 1/1.000 e < 1/100): Urticária, alopecia difusa (perda de cabelo acelerada, embora sem associação clara de causa e efeito estabelecida de forma definitiva).
- Reações Raras (> 1/10.000 e < 1/1.000): Anafilaxia, dispneia (falta de ar), elevações transitórias de bilirrubina e enzimas hepáticas (TGO/AST e TGP/ALT), elevações nos níveis de ureia e creatinina séricas, angioedema.
- Reações Muito Raras (< 1/10.000):
- Hematológicas: Anemia, leucopenia, trombocitopenia.
- Neurológicas (mais comuns em pacientes com insuficiência renal ou idosos): Confusão mental, agitação, tremores, ataxia, disartria, alucinações, sintomas psicóticos, convulsões, sonolência, encefalopatia e coma.
- Renais: Insuficiência renal aguda, dor renal (flanco), frequentemente associada à precipitação de cristais nos túbulos renais.
Efeitos Adversos da Administração Tópica
- Creme Dermatológico: Queimação ou ardência transitória no local da aplicação, leve ressecamento ou descamação da pele, prurido e, raramente, dermatite de contato alérgica.
- Pomada Oftálmica: Ardência leve e transitória imediatamente após a aplicação, ceratopatia superficial pontilhada (que geralmente cicatriza sem sequelas), blefarite ou conjuntivite.
Interações Medicamentosas
As interações medicamentosas clinicamente significativas com o aciclovir ocorrem principalmente com fármacos que competem pela mesma via de eliminação renal ou que possuem potencial nefrotóxico aditivo.
- Probenecida: Este agente uricosúrico inibe competitivamente a secreção tubular renal ativa do aciclovir. A coadministração resulta em um aumento de aproximadamente 40% na meia-vida de eliminação do aciclovir e na sua área sob a curva (AUC) plasmática, elevando o risco de toxicidade sistêmica.
- Cimetidina: Assim como a probenecida, a cimetidina diminui a depuração renal do aciclovir por competição na secreção tubular ativa, aumentando a exposição sistêmica ao antiviral.
- Fármacos Nefrotóxicos: O uso concomitante de aciclovir sistêmico com outras drogas que afetam a fisiologia renal — como aminoglicosídeos (gentamicina, amicacina), anfotericina B, ciclosporina, tacrolimo, cisplatina e anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) — aumenta significativamente o risco de nefropatia e insuficiência renal aguda. É essencial monitorar a função renal (creatinina sérica) nesses pacientes.
- Micofenolato de Mofetila: Em pacientes transplantados que utilizam micofenolato de mofetila, a administração concomitante de aciclovir resulta em um aumento mútuo das concentrações plasmáticas de ambos os fármacos inativos devido à competição pela secreção tubular renal.
Uso em Populações Especiais
Gestantes (Categoria de Risco B)
O aciclovir atravessa a barreira placentária. Dados de registros de gravidez documentaram o uso de aciclovir em milhares de gestantes expostas durante o primeiro trimestre, sem que tenha sido observado um aumento na incidência de malformações congênitas em comparação com a população geral. No entanto, por questões de segurança, o aciclovir só deve ser utilizado durante a gestação se os benefícios terapêuticos justificarem claramente os potenciais riscos para o feto. O uso no final da gestação para supressão de herpes genital ativo é uma prática comum para prevenir a transmissão vertical do vírus ao recém-nascido durante o parto vaginal.
Lactantes
Após a administração oral de aciclovir, o fármaco é excretado no leite materno em concentrações que podem ser até 4 vezes superiores às concentrações plasmáticas maternas. Consequentemente, o lactente pode ser exposto a doses diárias estimadas de até 0,3 mg/kg. Apesar disso, o aciclovir é considerado compatível com a amamentação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Sociedade Brasileira de Pediatria, uma vez que doses terapêuticas pediátricas diretas são muito mais elevadas. Recomenda-se cautela e supervisão médica.
Idosos
Pacientes idosos frequentemente apresentam declínio fisiológico da função renal. Portanto, a depuração renal do aciclovir pode estar reduzida nesta população, mesmo na presença de níveis normais de creatinina sérica (o que exige o cálculo do clearance de creatinina estimado). Os idosos também são mais suscetíveis a desenvolver efeitos colaterais neurológicos, como confusão mental e alucinações. A manutenção de uma hidratação adequada é prioritária para este grupo.
Pacientes com Insuficiência Renal
A dose de aciclovir sistêmico deve ser rigorosamente ajustada em pacientes com insuficiência renal (clearance de creatinina inferior a 25 mL/min para o tratamento de herpes zóster, e inferior a 10 mL/min para herpes simples). O ajuste previne o acúmulo plasmático da droga e minimiza os riscos de neurotoxicidade e piora da função renal.
Superdosagem
A superdosagem por via oral geralmente não resulta em toxicidade sistêmica grave devido à baixa absorção intestinal do fármaco. No entanto, a ingestão acidental ou intencional de doses maciças de aciclovir oral (superiores a 20 g) pode provocar sintomas gastrointestinais severos (náuseas, vômitos) e manifestações neurológicas leves (cefaleia, confusão).
Por outro lado, a superdosagem por via intravenosa ou a administração rápida de doses elevadas sem hidratação adequada pode levar a consequências graves. O aciclovir precipita-se sob a forma de cristais em forma de agulha no interior do lúmen dos túbulos renais, levando à obstrução mecânica e à insuficiência renal aguda anúrica ou oligúrica. Os sintomas neurológicos também podem se manifestar de forma exuberante, incluindo agitação, alucinações, convulsões e coma.
Tratamento da Superdosagem
Não existe um antídoto específico para o aciclovir. Em caso de superdosagem aguda e suspeita de toxicidade renal ou neurológica, as seguintes medidas devem ser adotadas:
- Interrupção imediata da administração do fármaco.
- Indução de diurese forçada através de hidratação intravenosa vigorosa para prevenir e tratar a deposição de cristais nos rins.
- Monitoramento rigoroso da função renal, eletrólitos e balanço hídrico.
- Em casos graves de insuficiência renal aguda e neurotoxicidade refratária, a hemodiálise é altamente eficaz. Uma única sessão de hemodiálise de 4 horas é capaz de remover aproximadamente 60% do aciclovir circulante do organismo.
☠️ Superdosagem (Overdose)
🚨 Em caso de superdosagem: ligue imediatamente para o SAMU (192) ou vá ao pronto-socorro.
Medicamentos Genéricos e Similares
O aciclovir foi um dos primeiros antivirais a ter sua patente expirada, o que permitiu o desenvolvimento e a comercialização de uma ampla gama de medicamentos genéricos e similares no mercado brasileiro. Todos os genéricos aprovados pela ANVISA passam por testes rigorosos de bioequivalência e equivalência farmacêutica em relação ao medicamento de referência, o Zovirax® (GSK), garantindo que apresentem a mesma eficácia, segurança e qualidade do produto original.
Entre os principais laboratórios farmacêuticos que produzem o aciclovir genérico no Brasil estão a Medley, EMS, Eurofarma, Neo Química, Germed, Prati-Donaduzzi e Teuto. Além dos genéricos, existem diversos medicamentos similares que possuem marcas comerciais conhecidas, tais como:
- Aviral® (Laboratório Abbott)
- Ezopen® (Laboratório Biolab)
- Zovax® (Laboratório Neo Química)
- Hervirax® (Laboratório Hebron)
Comparativo com Medicamentos da Mesma Classe
Embora o aciclovir continue sendo o antiviral mais prescrito devido ao seu custo acessível e perfil histórico consolidado, outros análogos nucleosídicos foram desenvolvidos posteriormente com o objetivo de melhorar as propriedades farmacocinéticas, especialmente a biodisponibilidade oral.
Valaciclovir vs. Aciclovir
O valaciclovir é uma pró-droga (L-valil éster) do aciclovir. Após a ingestão oral, o valaciclovir é rápida e quase completamente convertido em aciclovir pela enzima hidrolase de primeira passagem no fígado e no intestino. A grande vantagem do valaciclovir é a sua biodisponibilidade oral superior (cerca de 55% a 60% em comparação com os 15% a 30% do aciclovir). Isso permite regimes posológicos muito mais convenientes e confortáveis para o paciente. Por exemplo, enquanto o tratamento do herpes zóster com aciclovir requer a tomada de 5 comprimidos diários de 800 mg, o tratamento com valaciclovir requer apenas 1 g (2 comprimidos de 500 mg) 3 vezes ao dia.
Famciclovir vs. Aciclovir
O famciclovir é a pró-droga oral do penciclovir. Ele apresenta uma excelente biodisponibilidade oral (cerca de 77%) e uma meia-vida intracelular significativamente mais longa do que a do aciclovir ativo dentro das células infectadas pelo vírus herpes (até 20 horas para o penciclovir trifosfato). Isso também possibilita um menor número de tomadas diárias e maior adesão ao tratamento.
Registro na ANVISA
O aciclovir possui registro ativo e regular na ANVISA sob diversas apresentações e marcas. De acordo com a regulamentação sanitária brasileira, o aciclovir em suas apresentações de uso sistêmico (comprimidos e injetável) e oftálmico é classificado como um medicamento sob prescrição médica, exigindo a apresentação de receita simples (tarja vermelha). O aciclovir creme dermatológico (5%), por sua vez, é classificado em algumas apresentações como Medicamento Isento de Prescrição (MIP), podendo ser adquirido diretamente nas farmácias para o tratamento de herpes labial recorrente, embora a orientação farmacêutica ou médica seja sempre recomendada.
Os números de registro específicos variam conforme o fabricante. Por exemplo, o medicamento de referência Zovirax® possui o registro ANVISA nº 1.0107.0113 (comprimidos) e nº 1.0107.0114 (creme).
Perguntas Frequentes sobre Aciclovir
Onde Comprar Aciclovir?
O aciclovir é um medicamento amplamente acessível no Brasil, podendo ser adquirido em praticamente qualquer farmácia física ou online do país. Por estar presente na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME), o aciclovir em comprimidos de 200 mg e em creme dermatológico também pode ser obtido gratuitamente em Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Sistema Único de Saúde (SUS) e em farmácias populares conveniadas ao programa “Aqui Tem Farmácia Popular”, mediante apresentação de receita médica válida do SUS ou da rede privada.
Para compras particulares, os preços do aciclovir genérico variam bastante conforme o laboratório, a região do país e a apresentação. O creme dermatológico costuma ter preços muito acessíveis, variando entre R$ 5,00 e R$ 15,00. Já as caixas com comprimidos de 200 mg ou 400 mg (geralmente com 25 a 30 comprimidos) variam entre R$ 15,00 e R$ 60,00. Recomenda-se sempre realizar pesquisas de preços e verificar a necessidade de receita médica no momento da compra.
Onde comprar Aciclovir
Farmácias online parceiras. Confira preço e disponibilidade no site da loja.
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Fonte e revisão
Conteúdo baseado no Bulário Eletrônico da ANVISA, disponível em consultas.anvisa.gov.br. Publicado em 14/08/2026 e revisado em 14/08/2026. Encontrou alguma divergência? Avise a gente.
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